InfraTrends 2025: caminhos estratégicos para o futuro da infraestrutura e energia no Brasil
Mattos Filho promove a 1ª edição do evento, reunindo especialistas para discutir oportunidades e entraves diante de um cenário internacional desafiador
Em um cenário de nova política tarifária dos Estados Unidos e da possibilidade de uma guerra comercial em curso, países emergentes como o Brasil podem se tornar destinos mais atrativos para investimentos em infraestrutura e energia. O momento reacende uma questão central, se o Brasil pode sair fortalecido nesse novo contexto global, e quais são os entraves econômicos, regulatórios e estruturais que ainda limitam seu avanço.
Essas e outras questões foram discutidas na 1ª edição do InfraTrends, evento promovido pelo Mattos Filho na última quarta-feira (21/5), que reuniu os sócios Fabiano Brito, Felipe Feres, Giovani Loss, Marina Anselmo, Natália Mauad, Nilton Mattos, Pablo Sorj e Thiago Sombra, da prática de Infraestrutura e Energia do escritório, além de representantes do setor público e privado — incluindo nomes do BTG, Itaú BBA, Wood Mackenzie, Atlas Agro, Ecoa Consultoria, MoveInfra, BNDES e Ministério dos Transportes.
Cenário macroeconômico: entre incertezas e oportunidades
O contexto econômico global segue desafiador, marcado por uma recuperação desigual no pós-pandemia, inflação persistente e tensões comerciais. Embora os Estados Unidos tenham demonstrado uma retomada sólida, incertezas sobre a sustentabilidade desse desempenho permanecem, especialmente diante da política monetária restritiva. Enquanto isso, economias como Brasil, China e países europeus ainda lutam para recuperar o dinamismo econômico em meio a desafios estruturais e pressões inflacionárias.
Os palestrantes apontaram que, no Brasil, os desafios estruturais são ainda mais evidentes. Após uma década de crescimento frágil, o PIB per capita voltou ao patamar de 2013 apenas em 2024. A taxa Selic segue elevada em 2025, pressionando o custo da dívida pública e limitando investimentos. A credibilidade da política econômica tornou-se essencial, especialmente diante de expectativas inflacionárias desancoradas.
Mesmo diante desse cenário restritivo, oportunidades surgem. A valorização do real, impulsionada pela queda do dólar, pode trazer ganhos no curto prazo, e a maior previsibilidade fiscal e monetária tende a fortalecer a confiança dos investidores. Nesse contexto, a infraestrutura ganha um papel central como motor da economia, exigindo maior participação do capital privado e melhorias na atratividade contratual.
A guerra tarifária, embora represente um desafio, também abre possibilidades de novos acordos comerciais. Com uma atuação coordenada entre governo e iniciativa privada, o Brasil pode transformar suas fragilidades estruturais em bases mais sólidas de crescimento, impulsionando investimentos de longo prazo.
Energia: transição e reposicionamento
O setor de energia vive um momento de transição, impulsionado por mudanças no comércio internacional e pela busca por fontes mais sustentáveis. No InfraTrends, os especialistas exploraram os impactos das guerras tarifárias sobre renováveis, novos combustíveis e sistemas de geração elétrica, além das barreiras à viabilização de grandes investimentos.
Um dos pontos de atenção nesse cenário é a forte dependência do Brasil em relação à China para equipamentos renováveis. O país asiático domina a produção global de turbinas eólicas, sistemas de baterias e módulos solares — com cerca de 99% dos equipamentos solares usados no Brasil vindos de lá. Essa concentração expõe o setor a riscos de aumento de custos e interrupções no fornecimento. A cadeia global de turbinas a gás também enfrenta pressão, em parte pelo crescimento de data centers e da demanda termoelétrica, elevando custos e dificultando a expansão.
A produção de hidrogênio verde também ganhou espaço. Com energia renovável abundante e disponibilidade de território, o Brasil tem vantagens competitivas na produção voltada à indústria de fertilizantes. No entanto, a ausência de marcos regulatórios e de contratos de longo prazo ainda dificulta a viabilidade dos projetos.
Outro destaque foi a expansão dos data centers no país, que aumenta a demanda por fornecimento contínuo de energia e segurança regulatória. Com o interesse crescente de fundos globais e empresas de tecnologia, o segmento tende a ganhar protagonismo nos próximos anos. Para isso, será necessário um ambiente regulatório mais adaptado e investimentos estratégicos que assegurem a sustentabilidade dessa expansão. O setor de energia, portanto, se encontra em um ponto de transição, equilibrando desafios e oportunidades para moldar seu futuro no cenário global.
Logística: inovação, financiamento e integração
A infraestrutura logística tem ganhado protagonismo como vetor de crescimento econômico no Brasil, com um pipeline robusto de projetos em diversos modais. Durante o evento, foram debatidas novas concessões em portos, ferrovias e hidrovias, com foco na modernização contratual, inovação no financiamento e ganhos de competitividade.
Entre os destaques, está o avanço nas concessões de canais de acesso portuário como resposta a gargalos operacionais e altos custos logísticos. A dragagem desses canais, essencial para o tráfego de grandes embarcações, ainda enfrenta desafios técnicos e regulatórios que exigem soluções de compartilhamento de riscos.
No setor ferroviário, o Plano Nacional de Ferrovias busca estruturar novos projetos e renegociar concessões, com previsão de investimentos de até R$ 140 bilhões. Estratégias como investimento cruzado e contas vinculadas foram apontadas como formas de reduzir riscos e atrair capital privado, especialmente em trechos greenfield, como a Fico-Fiol e o Arco Ferroviário do Sudeste.
As hidrovias, por sua vez, representam uma oportunidade estratégica de eficiência energética e redução de custos logísticos. O Brasil tem cerca de 40 mil quilômetros de rios navegáveis, e projetos como a derrocagem do Pedral do Lourenço, na hidrovia Tocantins, são considerados essenciais para o escoamento de grãos e minérios. A integração de terminais e o uso de calado dinâmico foram discutidos como alternativas para reduzir a dependência de dragagens constantes e ampliar a previsibilidade do transporte fluvial.
Por fim, os desafios regulatórios e institucionais também entraram na pauta, especialmente no que diz respeito às garantias financeiras para novos projetos. O modelo de PPPs foi citado como um mecanismo que poderia ajudar na viabilidade dos investimentos, mas as limitações legais ainda representam um obstáculo. A criação de mecanismos de garantia líquida foi apontada como fundamental para ampliar a atratividade e viabilidade da carteira de investimentos em infraestrutura.
Com temas estratégicos em pauta, o InfraTrends 2025 reforçou a importância de uma atuação integrada e de longo prazo para o avanço da infraestrutura e energia no país.
Para mais informações sobre os temas debatidos, conheça a prática de Infraestrutura e Energia do Mattos Filho.