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Escritórios de advocacia apostam na diversidade

2Jul2018Jul2,2018
Valor Econômico

​Joice Bacelo

Um movimento que teve início em multinacionais como Facebook, que publicou anúncio nos EUA informando que só contrataria escritórios de advocacia que tivessem ao menos 30% das vagas preenchidas por "minorias", começa a ganhar força também no Brasil.

Bancas tradicionais como Lee, Brock, Camargo Advogados (LBCA), Mattos Filho e Trench Rossi e Watanabe, por exemplo, já reservam parte de suas vagas para profissionais LGBTI, negros, mulheres e outros grupos que, mesmo veladamente, são alvo de discriminação no mercado de trabalho.

"Participamos da cotação de uma grande empresa e uma das perguntas que nos fizeram tratava sobre a diversidade de gênero. Depois de contratados soubemos pelo cliente que esse foi um diferencial. No sistema de pontuação interna deles, disseram, nós ganhamos muito", conta Francisco Todorovi, que integra o comitê de administração do Trench Rossi e Watanabe.

Escritórios de advocacia investem na diversidade para atrair clientes

Por Joice Bacelo | De São Paulo

Alexandre Moss, 48 anos, advogado. Está por se formar em administração pública pela Fundação Getulio Vargas. Tem um bom currículo. Mas não fala só sobre a carreira nas entrevistas de emprego das quais participa. Ele se vê obrigado, sempre, a expor a intimidade. Durante a conversa, sem muito rodeio, dispara: "haveria algum problema por eu ser transsexual?" Nunca recebeu um sim como resposta, mas as portas demoraram a se abrir.


Foi contratado há poucos dias por um escritório de advocacia de São Paulo. A vaga era específica para pessoas que mudaram de sexo. E, pela primeira vez, não precisou dizer, no meio da entrevista, que nasceu Alexandra, mas ainda jovem iniciou um processo de transição, com medicamentos e cirurgias, para se reconhecer, no espelho, como Alexandre. Uma oportunidade para ele e para o escritório que o contratou.

Grandes empresas têm levado em conta, no momento de fechar com uma assessoria jurídica, o perfil do local. As companhias avaliam, por exemplo, a quantidade de mulheres no escritório, o cargo que ocupam e se há funcionários negros e homossexuais.
Esse movimento começou com as multinacionais. De fora para dentro. No ano passado, por exemplo, o Facebook fez um anúncio público nos Estados Unidos de que só contrataria escritórios de advocacia que tivessem ao menos 30% das vagas preenchidas por "minorias". Empresas como Metlife e Walmart informaram que seguiriam por esse mesmo caminho.

"E isso é algo que já está acontecendo no Brasil. Alguns clientes fazem quase que uma sabatina específica sobre essas questões. Temos que informar já no formulário de proposta", diz o sócio de uma das maiores bancas do país, que prefere não se identificar.
Alexandre Moss foi contratado pelo Lee, Brock, Camargo Advogados (LBCA). Preencheu uma das cinco vagas oferecidas pelo escritório especificamente para pessoas que mudaram de sexo. A banca disponibilizou ainda outras cinco, voltadas para área administrativa, a refugiados - que serão contratados por meio de grupos da igreja católica que acolhem os recém-chegados ao país.

Solano de Camargo, sócio sênior do LBCA, diz que essas vagas foram criadas a partir da implantação do que ele chama de comitê da diversidade. A ideia surgiu a partir de uma tradicional reunião de balanço, no começo do ano, entre os sócios da banca. Foi nessa ocasião que a área de recursos humanos levantou o assunto.

O escritório, recorda o advogado, apesar de nunca ter feito restrição ao perfil do contratado, não tinha esses funcionários. "A advocacia ainda é vista como um ramo de negócio tradicional e talvez, por esse motivo, as pessoas nem se candidatem às vagas", diz Camargo. "Percebemos, então, que não basta ter um processo de seleção amplo. Para tê-los no escritório nós precisamos ir atrás", complementa.

Alexandre soube da vaga por um grupo de transsexuais no Facebook. Ele afirma que enviou o currículo e dois dias depois ligaram para a entrevista. "Isso nunca tinha acontecido. Das outras vezes eu via no rosto das pessoas, durante o processo de seleção, que não seria contratado, bastava falar que era transsexual", afirma. "Certa vez um sujeito chegou a ficar com o rosto vermelho. As pessoas não esperam por isso. Não estão preparadas para isso no mercado de trabalho", diz.

Mesmo a questão de gênero, homem e mulher, ainda precisa ser superada, avalia o professor e advogado Ruy Copolla, sócio FCTK Advogados. Por ter muito contato com estudantes e recém-formados em direito, ele recebe currículo praticamente todos os dias, seja para a atuação no seu próprio escritório ou para encaminhar a outro que tenha vaga em aberto.

"O que chama muita atenção é que quando são enviados por mulheres muitas vezes vêm destacado o fato de serem solteiras ou não terem filhos", diz. Para ele, isso mostra o quanto o mercado ainda é preconceituoso. "Estado civil e maternidade não deveriam ser qualificação profissional. Eu como pai e marido tenho as mesmas responsabilidades que a minha esposa. Qual é a lógica, então, em ter restrições às mulheres?"

Os escritórios, aos poucos, vão se transformando. As grandes bancas do país, ao menos, têm criado comitês e grupos de discussão sobre o assunto.

No Mattos Filho, por exemplo, escritório com mais de 500 advogados, existem ao menos três grupos: um dedicado às mulheres, outro aos negros e um específico ao tema LGBTI, a sigla para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais e pessoas intersexuais (antes chamadas de hermafroditas).

José Eduardo Carneiro Queiroz e Roberto Quiroga, sócios do escritório, explicam que são iniciativas com o propósito de incluir e agregar as pessoas. Os debates, eles dizem, também despertam para ações institucionais. Foi a partir do grupo #mfriendly, voltado ao tema LGBTI, por exemplo, que se concretizaram iniciativas da banca de apoio a campanhas externas, como o Livres e Iguais, um trabalho de inclusão da ONU, e a atuação pro bono para situações, por exemplo, de mudança do nome civil.

"O que vai nos levar para frente, como escritório de advocacia, é ter gente boa trabalhando aqui e essas pessoas estão espalhadas por todos esses nichos. Temos, então, que nos preocupar em não perder talentos", diz Queiroz. "E, além disso, quem não está fazendo, está perdendo algo que pode ser estratégico para o seu negócio. Esse é um tema que cada vez mais tem a atenção dos clientes."

O escritório Trench Rossi e Watanabe, que desde 2012 tem um comitê de diversidade e desenvolve ações semelhantes as do Mattos Filho, teve retorno do mercado, há pouco tempo, sobre essa questão. "Participamos da cotação de uma grande empresa e uma das perguntas que nos fizeram tratava sobre a diversidade de gênero. Depois de contratado soubemos pelo cliente que esse foi um diferencial. No sistema de pontuação interna deles, disseram, nós ganhamos muito", diz Francisco Todorovi, que integra o comitê de administração da banca.

No Trench as mulheres são maioria. Tanto em número de advogados como em quantidade de sócios - 55% dos líderes são mulheres e 44% homens. Há um cuidado na banca, segundo conta a responsável pelo comitê de diversidade e inclusão, a advogada Anna Mello, em atender as necessidades das funcionárias. No retorno da licença-maternidade, por exemplo, as mulheres podem ter um horário mais flexível ou mesmo trabalhar de casa.

"Nós não podemos só receber, nós temos que acolher. Isso é o mínimo que um ambiente de trabalho pode oferecer. É a nossa obrigação básica", diz Anna. "Temos a diversidade como uma causa social, uma causa interna e como uma causa de negócio", completa a advogada.

Projeto tenta ampliar presença negra em bancas
Por Beatriz Olivon | De Brasília

Um projeto do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (Cesa) e do Instituto Presbiteriano Mackenzie, criado em 2017, pretende incluir mais estudantes negros nos grandes escritórios de São Paulo. A ideia é auxiliá-los a entrar no mercado de trabalho sem usar cotas - mas com aulas de inglês e tutores. Na primeira turma foram selecionados dez alunos. A proposta é ampliar o grupo. Neste ano, serão 15.

A demanda surgiu nos escritórios quando se percebeu o baixo número de profissionais negros nas equipes, segundo o presidente do Cesa, Carlos José Santos da Silva. Pesquisa realizada em 2016 pela entidade indicou que menos de 1% dos advogados dos escritórios associados ao Cesa eram negros.
Diante disso, o centro fez uma parceria com o Mackenzie para selecionar alunos que receberão uma espécie de "tutoria" no projeto chamado "Incluir Direito". "Nosso objetivo é fazer uma capacitação para que eles possam vencer as primeiras barreiras", afirma o presidente do Cesa.

Entre os segmentos de profissionais liberais, a advocacia nas grandes bancas está entre os piores em termos de exclusão, de acordo com Frei David, presidente da ONG Educafro. "Em todas as reuniões que fizemos com os grandes escritórios eles reconheceram que têm que fazer ações urgentes para mudar a realidade", afirma. A ONG foi procurada durante a elaboração do projeto.

A ideia é treinar os alunos para que eles se tornem competitivos diante dos processos seletivos desses escritórios. Em troca, eles devem se inscrever nessas seleções. No primeiro ano foram selecionados dez estudantes da universidade para o Incluir Direito. Eles participaram de aulas de inglês, reforço de português, por exemplo. Nove entraram nos escritórios parceiros.

"A maioria desses alunos têm desempenho acadêmico acima da média. Alguns falavam que tinham muita dificuldade em conseguir emprego apesar de seu desempenho estudantil acima da média", afirma o professor de direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie Silvio Luiz de Almeida. Ele mesmo passou pela experiência de ser o único advogado negro em um escritório, o único negro na turma de doutorado e um dos poucos professores na universidade.

No Mackenzie, a demanda surgiu com o aumento no número de estudantes negros na universidade. "Os alunos negros têm maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho, por uma questão estrutural", afirma Almeida.

A diversidade se tornou muito importante para as empresas e, consequentemente, para os grandes escritórios, segundo o professor. "Os escritórios apostam que estão lidando com pessoas que, por sua história, podem resolver problemas complexos, com maior capacidade de resiliência", afirma.

Além do treinamento dos alunos, também é feito um trabalho sobre diversidade dentro dos escritórios e são preparados tutores, que deverão orientar os jovens sobre o dia a dia na banca. "Além do projeto, pensamos que os escritórios deveriam debater a diversidade racial e como aumentar a população negra dentro do direito", afirma o advogado Roberto Quiroga, sócio do escritório Mattos Filho.

Além da parceria com o Mackenzie, os escritórios estudam a possibilidade de contratar candidatos que não tenham cursado faculdades consideradas "de primeira linha". Essa é uma demanda da Educafro.

Os escritórios participantes do Incluir Direito são Machado Meyer, Trench Rossi Watanabe, Tozzini Freire, Demarest, Mattos Filho, Pinheiro Neto, Sérgio Bermudes e Lefosse Advogados. O Cesa informa que todos os escritórios podem participar.
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