Crowdfunding, tokenização e Regime Fácil: especialistas apontam novos caminhos para acessar capital no Brasil
Mattos Filho e Cubo Itaú reuniram especialistas para debater as transformações regulatórias que podem ampliar o acesso de empresas ao mercado de capitais
O acesso ao mercado de capitais sempre foi um desafio para empresas em estágio de crescimento no Brasil. Entre as startups que buscam recursos para escalar seus negócios e as companhias que já atingiram maturidade operacional, existe um espaço historicamente ocupado pelo crédito bancário e por fontes privadas de financiamento. Nos últimos anos, porém, uma combinação de inovação tecnológica e evolução regulatória começou a abrir novas alternativas.
Esse movimento foi tema de debate em evento realizado em 11 de agosto de 2026, no Cubo Itaú, em São Paulo, que contou com a participação dos especialistas do Mattos Filho Fabio Perez, Jean Arakawa, Paulo Brancher e Tomás Neiva, e dos convidados Caio Viggiano e Flavia Mouta, para analisar os impactos da reforma da Resolução CVM 88, da tokenização de ativos e do Regime Fácil no futuro da captação de recursos no Brasil.
Mais do que mudanças pontuais nas regras do mercado, as discussões apontam para uma transformação mais ampla: a criação de uma jornada de captação de recursos capaz de acompanhar diferentes estágios de desenvolvimento das empresas brasileiras.
Crowdfunding ganha escala
Os números recentes indicam que o crowdfunding de investimento deixou de ser um mecanismo experimental para se consolidar como uma alternativa relevante de financiamento empresarial. Apenas no primeiro semestre de 2026, o volume de emissões alcançou R$ 2,1 bilhões, crescimento de 75% em relação ao mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, foram registradas 477 emissões, quase 50% acima do volume observado em 2025.
A expansão demonstra o amadurecimento do ecossistema e ajuda a explicar por que a CVM colocou em consulta pública uma ampla revisão da regulamentação do setor. Entre as propostas discutidas estão a ampliação dos limites de captação, a inclusão de novos perfis de emissores e a aproximação das plataformas de crowdfunding ao sistema tradicional de distribuição de valores mobiliários.
Na prática, o objetivo é ampliar o alcance desse instrumento e permitir que um número maior de empresas utilize o mercado para financiar seu crescimento.
Tokenização avança da experimentação para a infraestrutura
Outro tema que ganhou destaque foi a tokenização de ativos. Embora frequentemente associada ao universo dos criptoativos, a tokenização tem sido cada vez mais discutida sob a perspectiva da infraestrutura financeira.
A utilização de tecnologias de registro distribuído (DLT) para representar digitalmente valores mobiliários e direitos creditórios já encontra espaço dentro do modelo regulatório brasileiro. A própria consulta pública da CVM reconhece a possibilidade de utilização dessas tecnologias para controle de titularidade e negociação de ativos distribuídos por meio de plataformas de investimento participativo.
Nesse contexto, a tokenização passa a ser vista menos como uma inovação isolada e mais como uma ferramenta capaz de aumentar eficiência operacional, reduzir custos de emissão e ampliar o acesso de investidores a diferentes classes de ativos.
O papel do Regime Fácil
Se o crowdfunding atende empresas em estágios mais iniciais, o Regime Fácil surge como uma alternativa para companhias que já alcançaram maior porte, mas ainda enfrentam barreiras para acessar o mercado de capitais tradicional.
A iniciativa foi criada para empresas com receita bruta anual inferior a R$ 500 milhões e prevê simplificações relevantes nos processos de registro e divulgação de informações. Entre as medidas estão a adoção do Formulário Fácil, exigências informacionais reduzidas e procedimentos simplificados para realização de ofertas públicas.
A proposta busca diminuir custos regulatórios sem abrir mão dos mecanismos de proteção aos investidores, permitindo que um universo mais amplo de empresas considere o mercado de capitais como fonte de financiamento.
Uma nova arquitetura de financiamento empresarial
Talvez o aspecto mais relevante discutido durante o evento seja a complementaridade entre os diferentes regimes regulatórios. A própria CVM destaca que o crowdfunding e o Regime Fácil foram concebidos para atender perfis distintos de emissores, devendo coexistir de forma harmônica dentro do arcabouço regulatório brasileiro.
Essa visão sugere o surgimento de uma espécie de trilha de desenvolvimento para empresas em crescimento. Negócios em estágios iniciais podem utilizar plataformas de crowdfunding para captar recursos e validar seus modelos. À medida que amadurecem, poderiam acessar modalidades mais robustas de financiamento, inclusive por meio do Regime Fácil, aproximando-se gradualmente do mercado de capitais tradicional.
Mais do que promover inovação financeira, o desafio passa a ser criar mecanismos que ampliem o acesso ao capital produtivo e contribuam para o crescimento das empresas brasileiras. Nesse cenário, tokenização, crowdfunding e simplificação regulatória deixam de representar tendências isoladas e passam a integrar uma mesma agenda de modernização do mercado de capitais.
Para empresas, investidores e participantes do ecossistema de inovação, acompanhar essa evolução regulatória deixou de ser apenas uma questão de conformidade. É, cada vez mais, uma forma de identificar as oportunidades que podem definir os próximos ciclos de crescimento da economia brasileira.
Para mais informações sobre o tema, conheça as práticas de Bancos e Serviços financeiros, Mercado de capitais, Tecnologia e Venture capital do Mattos Filho.