Da saúde mental à gestão de riscos: o que muda com a NR-1
Mattos Filho e Cubo Itaú reúnem especialistas para discutir os desafios de adaptação às novas exigências relacionadas aos riscos psicossociais
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Por muitos anos, as discussões sobre saúde mental nas organizações estiveram concentradas em ações de conscientização, programas de bem-estar e benefícios voltados ao apoio dos colaboradores. Com as atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), porém, o tema passa a ocupar um novo espaço dentro das empresas: o da gestão de riscos.
Esse foi o foco do talk “NR-1 em 2026: Onde estamos e o que muda daqui para frente?”, realizado em 30 de setembro durante o evento Saúde em Pauta: Pessoas, Trabalho & Bem-estar, promovido pelo Cubo Itaú como parte das iniciativas da campanha “Setembro Amarelo”. A discussão contou com a participação da sócia Érika de Siqueira Seddon e do advogado Vinícius Sabatine, da prática de Trabalhista e Sindical do Mattos Filho, que compartilharam perspectivas jurídicas e práticas sobre os desafios trazidos pela nova regulamentação.
Mais do que uma atualização normativa, as mudanças refletem uma tendência observada globalmente: a incorporação dos fatores psicossociais à gestão da saúde e segurança no trabalho. Em um contexto marcado pelo aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental, empresas passam a ser chamadas a identificar, avaliar e gerenciar aspectos da organização do trabalho que possam contribuir para situações de adoecimento.
Da saúde mental à gestão de riscos
A partir da Portaria nº 1.419/2024, os riscos psicossociais passaram a ser expressamente contemplados no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Na prática, isso significa que fatores ligados à organização e à gestão do trabalho devem ser observados da mesma forma que outros riscos ocupacionais já tradicionalmente monitorados pelas empresas.
Entre os aspectos que podem merecer atenção estão cargas excessivas de trabalho, falhas de comunicação, insegurança laboral, falta de autonomia, assédio, conflitos interpessoais e gestão inadequada de mudanças. A avaliação, no entanto, deve levar em conta a realidade específica de cada organização, já que os fatores de risco podem variar de acordo com o setor, a atividade desenvolvida e a cultura corporativa.
O desafio de agir sobre as causas
Um dos principais pontos discutidos durante o evento foi a necessidade de diferenciar ações de bem-estar de medidas efetivas de prevenção.
Iniciativas como programas de apoio psicológico, palestras, campanhas de conscientização e atividades voltadas ao bem-estar seguem desempenhando um papel importante no cuidado com as pessoas. Entretanto, os especialistas destacaram que a lógica da NR-1 exige um olhar mais amplo, voltado à atuação para agir nas causas dos riscos psicossociais identificados.
Nesse contexto, as organizações são incentivadas a mapear seus riscos, registrar os resultados em seus programas de gerenciamento e desenvolver planos de ação compatíveis com os desafios identificados. Mais do que oferecer mecanismos de suporte, o objetivo passa a ser atuar sobre fatores estruturais que possam contribuir para situações de estresse, conflito ou adoecimento.
Um tema que segue avançando
Embora discussões sobre a aplicação prática da norma ainda estejam em andamento, os especialistas ressaltaram que os riscos psicossociais já ocupam espaço crescente em ações trabalhistas e investigações conduzidas pelo Ministério Público do Trabalho.
Além dos impactos jurídicos, a má gestão desses riscos pode gerar não só reflexos operacionais, como o absenteísmo, rotatividade, e dificuldade de atrair talentos, mas também refletir nos custos de folha de pagamento, devido ao impacto na alíquota FAT/RAT. Impactos reputacionais tendem a ganhar relevância à medida que o tema ganha força na sociedade.
Ao final do debate, a principal mensagem foi que a preparação para a NR-1 não deve ser encarada apenas sob a ótica da conformidade regulatória. A construção de ambientes de trabalho mais saudáveis depende da capacidade das organizações de compreender seus riscos, monitorar indicadores, engajar lideranças e implementar medidas efetivas de prevenção de forma contínua.
Para mais informações sobre o tema, conheça a prática de Trabalhista e Sindical do Mattos Filho.