InfraTrends 2026: geopolítica, custos e regulação redesenham investimentos em infraestrutura
Mattos Filho promove a 2ª edição do evento com especialistas de diferentes setores para discutir desafios e oportunidades em um cenário de volatilidade global
A intensificação das tensões geopolíticas, a persistência das pressões inflacionárias e a reorganização das cadeias produtivas globais vêm redesenhando o ambiente econômico internacional. O cenário resultante é mais desafiador para investimentos de longo prazo, marcado por custos elevados, juros altos e crescimento moderado. Nesse contexto, ganha força uma questão central: como viabilizar investimentos em infraestrutura capazes de impulsionar produtividade e crescimento sustentável, especialmente em economias como a brasileira, que enfrentam restrições fiscais e desafios estruturais históricos?
Esses e outros temas foram discutidos na 2ª edição do InfraTrends, promovido pelo Mattos Filho na quinta-feira (28/5). O evento contou com quatro painéis simultâneos e uniu sócios da prática de Infraestrutura e Energia, além de representantes do setor público e privado, incluindo nomes do Itaú BBA, Ecoa Consultoria Econômica, Brazilian Nickel, Clean Energy Latin America, Rystad Energy, Motiva, Prisma Capital, TERRANOVA, IBP, Secretaria de Parcerias em Investimentos de São Paulo e RIOgaleão.
Minerais críticos destacam protagonismo estratégico do Brasil
A crescente demanda por minerais críticos, impulsionada pela transição energética, por investimentos em defesa e pela economia digital, tem renovado o interesse global pelo setor de mineração. No Brasil, esse movimento tem se traduzido em maior visibilidade para o setor e na formação de um pipeline relevante de projetos, ainda concentrados em estágios iniciais de desenvolvimento, sobretudo para cobre, lítio, grafita, níquel e terras raras.
Ao longo do evento, os especialistas destacaram que muitos desses projetos ainda não atingiram o grau de maturidade necessário para acessar financiamento em escala. Grande parte dos projetos permanece em fases preliminares, anteriores à conclusão de estudos técnicos, licenciamento e estruturação, o que limita a atuação de bancos e investidores tradicionais. É nesse cenário que outros mecanismos de investimento, como aqueles que estimulem o investimento em equity, podem ser explorados. Fundos de private equity e outros participantes passaram a olhar para o setor mineral e para projetos com esse perfil, o que não se via até recentemente no mercado brasileiro. Essa mudança de percepção de investimento tem permitido avanços graduais, à medida em que projetos minerais se aproximem de marcos mais robustos de viabilidade.
Outro ponto destacado foi o caráter estruturalmente mais arriscado da mineração, inclusive no segmento de minerais críticos, em razão da maior complexidade tecnológica, da volatilidade de preços e da necessidade intensiva de capital. Nesse ambiente, o financiamento integralmente privado tende a ser mais desafiador, exigindo modelos que combinem capital, instrumentos financeiros sofisticados e, potencialmente, maior participação de políticas públicas. Apesar disso, o Brasil foi apontado como potencial protagonista global, dada a disponibilidade de recursos minerais e sua relevância geopolítica nas cadeias globais.
Óleo e gás: volatilidade geopolítica amplia cautela no setor
Durante os debates sobre óleo e gás, os especialistas destacaram como a escalada das tensões geopolíticas tem alterado a dinâmica do mercado global de energia. No início de 2026, a expectativa predominante era de superávit na oferta de petróleo, com preços abaixo de US$ 60 por barril. Esse cenário mudou rapidamente após o agravamento do conflito entre Estados Unidos e Irã, especialmente diante do fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Os participantes ressaltaram que, apesar da precificação parcial dos impactos pelo mercado, a incerteza permanece elevada, sobretudo em relação à duração e aos possíveis desdobramentos do conflito, bem como aos riscos logísticos e à pressão sobre estoques globais. Na avaliação dos participantes, o petróleo deve permanecer em patamares mais elevados, prolongando o ambiente de volatilidade e exigindo maior cautela na análise de projetos e decisões de investimento.
Crescimento de data centers no Brasil: oportunidade histórica para o país
Uma matriz elétrica com mais de 90% de energia limpa, disponibilidade de água para refrigeração, localização estratégica conectada a importantes cabos submarinos e custos de energia competitivos colocam o país em posição de destaque na América Latina, concentrando aproximadamente metade da capacidade instalada de data centers da região. O potencial de crescimento do setor, contudo, depende cada vez mais da expansão da infraestrutura de transmissão e de maior previsibilidade regulatória.
Nesse contexto, as políticas públicas ocupam papel central. O REDATA, por exemplo, programa que poderia destravar centenas de bilhões de reais em investimentos para a infraestrutura digital ao longo da próxima década, perdeu validade em fevereiro de 2026. Em um cenário de crescente competição global por investimentos, a previsibilidade regulatória e incentivos pontuais como esse podem ser determinantes para que o Brasil converta suas vantagens competitivas em projetos concretos.
A expansão da inteligência artificial é um importante vetor de crescimento do setor. Com a chegada de projetos que já superam 100 MW de capacidade e a rápida expansão dos hyperscalers no país, os modelos de financiamento também evoluem. Estruturas de financiamento corporativo vêm cedendo espaço a modelos de project finance, mais adequados à escala desses empreendimentos. Nesse contexto, a ampliação de linhas de crédito por bancos de desenvolvimento pode contribuir para acelerar investimentos e consolidar o Brasil como destino estratégico para infraestrutura digital.
Concessões buscam mais flexibilidade e soluções consensuais
O painel sobre logística abordou a introdução do diálogo competitivo como modalidade de licitação pra concessões, a evolução dos instrumentos de inclusão de novos investimentos em contratos de concessão no Brasil e o avanço de soluções mais flexíveis para destravar investimentos, especialmente em ativos estressados.
No contexto das repactuações, tema que protagonizou o debate, os participantes ressaltaram que essa agenda reflete um movimento de redução da judicialização e maior uso de soluções consensuais, inclusive com participação do Tribunal de Contas da União (TCU). Apesar dos avanços, os especialistas apontaram desafios importantes para a implementação desses modelos, como a necessidade de conciliar regras de licitações públicas com dinâmicas típicas de operações de M&A. Questões relacionadas a acesso à informação, governança do data room, alocação de riscos, garantias contratuais e transição entre operadores seguem centrais e ainda demandam maior aprendizado institucional por parte das agências reguladoras que conduzem tais processos.
O evento abordou ainda iniciativas estaduais voltadas à contratação de obras adicionais em concessões já existentes e defendeu maior aproximação entre práticas regulatórias e mecanismos de mercado. Para os participantes, o avanço dessa agenda dependerá da capacidade de equilibrar flexibilidade, transparência e segurança jurídica, fatores considerados essenciais para ampliar a confiança dos investidores e garantir a continuidade dos projetos de infraestrutura no país.
Com discussões sobre energia, logística, mineração e infraestrutura digital, o InfraTrends 2026 reforçou a importância de acompanhar os movimentos econômicos, regulatórios e geopolíticos que vêm transformando o ambiente de investimentos no Brasil e no mundo.
Para mais informações sobre os temas debatidos, conheça a prática de Infraestrutura e Energia do Mattos Filho.