Sign In

   

União leiloa R$ 13,2 bilhões em linhas de transmissão

19Dez2018Dec19,2018
Infraestrutura e Energia; Energia elétrica
Valor Econômico

Por Camila Maia e Rodrigo Polito | De São Paulo e do Rio

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) realiza amanhã o que promete ser o maior leilão de transmissão da história em termos de investimentos contratados. Os 16 lotes que serão oferecidos envolvem 7.152 quilômetros de extensão em linhas de transmissão e R$ 13,2 bilhões em investimentos.

A expectativa de especialistas e investidores ouvidos pelo Valor é que o certame terá intensa competição, a exemplo dos últimos. Isso deve resultar em deságios significativos em relação à receita anual permitida (RAP) máxima calculadas pela agência, que totaliza R$ 2,139 bilhões, considerando que todos os lotes sejam arrematados. O último leilão de transmissão realizado em junho teve deságio médio de 55,26%, o maior em 20 anos, o que significará economia de cerca de R$ 14,1 bilhões aos consumidores ao longo dos 30 anos de vigência dos contratos.

"O leilão deve ser muito disputado, estamos com uma relação entre RAP e capex muito interessante. Não sei se o deságio chegará a superar 50%, porque os investidores estão mais cautelosos", afirmou Thais Prandini, diretora executiva da consultoria Thymos Energia.

Em relatório publicado no início deste mês, o BTG Pactual calculou que o valor presente líquido dos ativos envolvidos pode chegar a R$ 2,2 bilhões no total, considerando uma taxa de retorno média próxima a 12%. A competição acirrada puxa os retornos para baixo, mas a aposta do banco é que as companhias consigam melhorar as taxas por meio de medidas como a antecipação da construção, a redução de investimentos e soluções mais baratas para a alavancagem dos empreendimentos.

O grande número de investidores disputando cada lote, visto nos últimos leilões, deve se repetir no certame de amanhã, afirmou o diretor-geral da Aneel, André Pepitone, ao participar de evento em São Paulo no início deste mês. O leilão de junho terminou com 8,65 ofertantes por lote, pouco abaixo da taxa recorde vista em dezembro de 2017, de 12,09 proponentes por lote. Além disso, a presença forte de investidores estrangeiros deve se repetir. "Tivemos oito países participando do último leilão, sinal que o investidor externo está de olho", disse Pepitone.

A companhia indiana Sterlite, que roubou a cena no último leilão com o sucesso em seis lotes, deve voltar com força para a disputa marcada para amanhã. A franco-belga Engie também está preparada para o leilão.

Os chineses, que tiveram presença tímida nos últimos certames, podem voltar a aparecer. A State Grid deve participar por meio da CPFL Energia. Também se espera a presença da Shanghai Electric, que negociou a aquisição de ativos de transmissão da Eletrosul recentemente e recuou no último momento. Esses ativos foram reestruturados e incluídos no leilão de amanhã, com taxas de retorno mais atrativas.

O presidente da Engie Brasil Energia, Eduardo Sattamini, afirmou que seu interesse é nos lotes que tenham sinergia com as operações da empresa. "Estamos olhando. Temos alguns lotes de interesse, sempre naquela filosofia de olhar os lotes que tenham alguma sinergia com nossas operações. É um leilão que tem um volume grande de linhas e que, de uma certa maneira, entendemos que terá oportunidades para os agentes ganharem concessões que façam sentido dentro dos seus portfólios", disse o executivo.

O tamanho dos ativos é um atrativo à parte desse leilão. Dois lotes, por exemplo, envolvem investimentos superiores a R$ 2 bilhões. Reynaldo Passanezi, presidente da ISA Cteep, controlada pela colombiana estatal ISA, disse que o fato de os ativos ofertados não envolverem grande sinergias com as operações da companhia não afastam seu interesse. "São lotes grandes. E lote grande não precisa de sinergia com ninguém, por si já se bastam", disse ao participar de evento em 6 de dezembro.

São esperadas ainda a participação de companhias como Equatorial e EDP Energias do Brasil. A Taesa, cujo controle é compartilhado por Cemig e ISA, também têm planos para o certame, apesar da aquisição dos ativos da J&F nesse segmento, anunciada na noite de segunda-feira.

Os lotes menores, por sua vez, devem atrair investidores de menor porte, financeiros, e entrantes. Segundo Miriam Signor, especialista em infraestrutura do escritório Stocche Forbes Advogados, além de tradicionais empresas de energia nacionais e estrangeiras e de empreiteiras de variados tamanhos, há um grande interesse no leilão por parte de fundos de investimentos em participações.

"Os fundos estão vindo bem agressivos", afirmou Miriam. De acordo com a especialista, o setor de transmissão hoje é um dos mais atrativos para investimentos em infraestrutura no Brasil, devido à previsibilidade de receita no longo prazo e à estabilidade regulatória. "Se você quer investir em infraestrutura, o melhor setor é transmissão de energia", completou.

Para os fornecedores de máquinas e equipamentos, o leilão de transmissão é uma grande oportunidade em termos de negócios. "O último leilão foi bem-sucedido para a GE e estamos trabalhando fortemente para termos um ótimo desempenho neste também. Nosso objetivo é seguir sendo reconhecidos no mercado como um parceiro competitivo e confiável para os investidores do leilão", disse Emanuel Bertolini, gerente geral da divisão de Grid Solutions da GE Power para as Américas.

O BNDES continua sendo a principal fonte de financiamento do segmento, embora outras formas de captação, como debêntures de infraestrutura, estejam ganhando mais força no mercado.

O escritório Mattos Filho destacou, em relatório, a possibilidade de os vencedores do leilão pleitearem a linha de crédito específica elaborada pelo BNDES. Pela linha, o financiamento pode ser concedido pelo banco de fomento no valor mínimo de R$ 20 milhões até o equivalente a 80% do valor do empreendimento. A linha de crédito também possibilita que o projeto tenha alavancagem adicional por meio de emissão de debêntures de infraestrutura adquiridas pelo banco, observado o requisito de que 20% do valor do projeto seja aportado com recursos próprios. Ao financiamento podem ser aplicadas a taxa de longo prazo (TLP) ou ainda o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Ver notícias do escritório