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Subindo da rampa

20Dez2018Dec20,2018
Seguros, Resseguros e Previdência privada
Apólice

Reformas e retomada de investimentos injetam otimismo em seguradoras e corretores de que o próximo ano será de crescimento mais parrudo para o segmento. Apesar do olhar otimista de executivos para 2019, a ressalva permanece: a economia brasileira tem de ajudar


Manuela Almeida

Após ter seu desempenho impactado pela previdência privada ao longo deste ano, o mercado de seguros credita a 2019 a definitiva volta ao crescimento de dois dígitos. Se não for possível cravar tal expansão, a expectativa do segmento é de, ao menos, se aproximar deste patamar, que no passado era quase que uma regra em termos de desempenho para o setor. Debruçados na confecção de orçamentos para o próximo exercício, seguradoras e corretores se dizem mais otimistas com o ano que se avizinha após exercícios consecutivos de projeções frustradas para a economia brasileira. Sustenta o olhar de executivos ouvidos por a expectativa de retomada dos investimentos por parte do setor corporativo e as tão prometidas reformas no governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). A continuidade de um maior fôlego de consumo por parte das pessoas físicas, que têm garantido ritmo à economia brasileira juntamente com o setor de agronegócios, também faz com que o mercado de seguros brasileiro trabalhe com um horizonte mais promissor para o próximo exercício. Somadas, essas vertentes tendem a permitir que a economia brasileira definitivamente decole, rumo a taxas de crescimento maiores. As projeções de expansão para o Produto Interno Bruto (PIB) do País indicam alta de 2,53% em 2019, conforme levantamento com mais de 100 instituições financeiras compilado no conhecido relatório Focus, do Banco Central, na primeira semana de dezembro. A projeção, se concretizada, representará uma aceleração quando comparada com a perspectiva para o ano vigente, de avanço de 1,32%. Os mais otimistas apostam em crescimento acima dos 3% no próximo exercício. A ressalva, contudo, é que as reformas econômicas que estão em banho maria precisam ser implementadas no governo de Bolsonaro. Estão nessa lista os ajustes na Previdência Oficial e também no que tange à arquitetura tributária do País. O presidente de uma gigante global no Pais diz que o mercado de seguros local tem “boa chance" de emplacar dois dígitos de crescimento em 2019. “Se passar alguma reforma de Previdência aí (o desempenho do mercado brasileiro de seguros) explode", prevê ele, na condição de anonimato.

Estruturalmente, sem as reformas econômicas necessárias, o PIB brasileiro corre sérios riscos de seguir com taxas de crescimento “medíocres”. De acordo com cenários calculados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada(Ipea), o País caminharia para uma taxa média de expansão de 0,5% ao ano entre os exercícios de 2020 a 2031. Com as reformas, a taxa média de crescimento, contudo, subiria a 2,2% ao ano. Por ora, o que tem se visto é um ritmo de avanço calçado em uma economia recém-saída de uma de suas crises mais graves - a segunda maior da história brasileira após as revisões estatísticas calculadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - e, portanto, com uma base de comparação extremamente fraca. No terceiro trimestre, o PIB brasileiro, divulgado no final de novembro, cresceu 0,8% ante o segundo e 1.3% no comparativo anual. Trata-se do sétimo trimestre consecutivo de expansão na economia brasileira.

O mercado de seguros deve crescer mais que o PIB local neste ano, mas seu desempenho foi impactado pelo segmento de previdência privada e impactado pelo ambiente de volatilidade de ativos concorrentes. De janeiro a setembro, o segmento - sem considerar saúde - encolheu 0.9% ante o mesmo período do ano passado, totalizando cerca de RS 179 billhões em faturamento, conforme números da Superintendência de Seguros Privados (Susep), compilados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). Sem considerar o seguro obrigatório (DPVAT), que teve sua tarifa reduzida, o decréscimo do mercado vai a 0,2% no acumulado do ano, o que o segmento encara como um "um estado de estabilidade" em termos nominais. A CNseg, que tem chamado atenção para o desempenho recortado de cada modalidade ao invés de o tradicional olhar geral para o setor de seguros, espera, contudo, que essa rota mude ainda neste ano, com crescimento de 3,3% em relação a 2017. Na melhor das hipóteses, a entidade projeta incremento de 5,2% no faturamento das seguradoras neste ano. Para o próximo exercício, as projeções ao menos até aqui - indicam um desempenho ainda mais favorável do mercado de seguros, podendo, considerando um cenário otimista previsto pela CNseg, dobrar o ritmo de expansão visto ao longo deste exercício. “O desempenho do mercado de seguros é consequência do ritmo da economia brasileira. A correlação é direta. Com mais pessoas empregadas, o setor de saúde privada voltando, o resultado do mercado de seguros deve encostar nos dois dígitos de crescimento", avalia o presidente da corretora de seguros MDS Brasil, Ariel Couto. A partir de uma postura "mais otimisma" com 2019, o executivo destaca ainda que há uma influência grande das eleições presidenciais no País, uma vez que o discurso da nova gestão está centralizado na redução do Estado e privatização de ativos estatais, o que também deve abrir oportunidades para seguradoras e corretores. Tanto é que, além do claro impulso que deve continuar vindo das pessoas físicas, do segmento de agronegócios e de produtos atrelados ao mercado de crédito como prestamista e habitacional, seguradoras e corretores veem como nichos promissores cm 2019 justamente aqueles que têm relação com o setor de infraestrutura e também a leilões e concessões. Isso porque ainda que a retomada dos investimentos leve um tempo a proporcionar mais negócios em seguros, o mercado já espera reflexos positivos em 2019.

O presidente da Federação Nacional dos Corretores (Fenacor), Armando Vergílio, vê amplo espaço para o mercado de seguros ocupar na economia visto que o segmento andou de lado nos últimos anos. “O mercado de seguros tem papel relevante a cumprir nesse processo de retomada de crescimento da economia brasileira, oferecendo a indispensável gama de produtos e serviços que protejam os negócios e das pessoas, além de atuar efetivamente como expressivo investidor institucional, inclusive com o financiamento de grandes projetos públicos ou privados", avalia ele. Do lado da regulação, Vergílio defende a continuidade do trabalho que vem sendo feito pela Susep, com foco na economia, no intuito de estimular negócios e o desenvolvimento do mercado de seguros. Segundo ele, 2018 foi um ano de “transição" para os corretores de seguros, que sofreram naturalmente as consequências do ritmo lento de recuperação da economia. “As transformações provocadas por novas tecnologias e a demora na retomada do crescimento econômico foram obstáculos que exigiram muito trabalho e dedicação. Creio que os corretores de seguros terminam 2018 mais fortes do que iniciaram", diz o presidente da Fenacor, acrescentando que os corretores estão prontos para seguir em frente, com “justificado otimismo".

Estável

Ainda que por enquanto a economia não esteja uma maravilha, alguns frutos já começam a ser colhidos pelo setor de seguros, quer seja no desempenho de algumas carteiras ou na visão do mercado financeiro. Depois de melhorar a perspectiva de rating do segmento este ano de negativa para estável, a agência Fitch Ratings manteve a recomendação para 2019. Na visão da classificadora, o ano que vem será um pouco “menos desafiador" para o setor de seguros em meio à perspectiva de recuperação do crescimento dos prêmios e também por conta da redução das incertezas políticas após as eleições presidenciais no País. Além disso, a Fitch acredita na manutenção dos atualmente favoráveis indicadores de crédito das seguradoras para o próximo exercício. A revisão e manutenção da perspectiva de rating “estável" para o mercado brasileiro de seguros ocorre após a classificadora ter mantido recomendação negativa para o segmento por três anos consecutivos. A Fitch, contudo, se mantém cautelosa no campo das expectativas. A agência prevê modesta recuperação do crescimento dos prêmios em 2019, mas ainda abaixo dos 5%, em decorrência da sua previsão de crescimento do PIB brasileiro de 2,3% em 2019 ante expectativa de alta de 1,3% neste ano. Ressalta que o crescimento dos prêmios no setor brasileiro de seguros depende consideravelmente do cenário macroeconômico. Alerta ainda para o fato de os juros baixos, que pressionam a receita financeira das seguradoras, ainda serem um desafio no próximo exercício. Para o próximo ano, o mercado financeiro, conforme o boletim Focus, do BC. projeta aumento da taxa básica da economia, a Selic, mas nada muito alentador sob o ponto de vista de melhorar o retorno das companhias de seguros. Atualmente em 6,50% ao ano, analistas esperam que os juros subam a 7.68% ao ano para evitar possíveis choques nos preços (inflação), voltando ao patamar acima dos 8% somente em 2020. De janeiro a setembro, o resultado financeiro das seguradoras diminuiu em cerca de 13%, o equivalente a quase RS 5,5 bilhões, totalizando RS 36,3 bilhões, segundo dados da Susep compilados por Apólice, na comparação com o mesmo período do ano passado. Ante 2016, quando a taxa Selic encerrou o exercício em 13,75% ao ano, a queda é ainda maior, passando dos RS 11 bilhões que deixaram de ser computados nos balanços das seguradoras. “A redução das incertezas políticas após as eleições de 2018 e a recuperação econômica devem contribuir para o crescimento dos prêmios, mas é improvável que a receita financeira se recupere significativamente", avalia a diretora da Fitch, Esin Celasun.

Diante disso, segue o mantra de que as seguradoras têm de se debruçar na melhora da eficiência e do resultado operacional para compensar um menor desempenho do lado financeiro. A Porto Seguro, por exemplo, tem conseguido colher frutos desta estratégia. No acumulado do ano até setembro, o resultado operacional da companhia foi três vezes maior, superando o impacto da redução da taxa de juros em suas aplicações financeiras. Esse desempenho, destaca o diretor geral de Relações com Investidores da Porto Seguro, Marcelo Picanço, confirma que é possível compensar a queda do resultado financeiro dentro de um período mais longo. A Bradesco Seguros, por exemplo, entregou no terceiro trimestre seu o melhor desempenho operacional em sete anos. O diretor-presidente da companhia, Vinícius Albernaz, diz que a instituição segue debruçada em segmentos de maior rentabilidade, do lado financeiro, e trabalha com ventos mais favoráveis em meio ao arrefecimento dos índices gerais de preço (IGPs), que foram impactados pelo câmbio. “Temos uma perspectiva mais positiva para o resultado financeiro", resume o executivo.

Para o operacional, as seguradoras também já trabalham com um cenário mais otimista. Picanço, da Porto, espera um crescimento maior de venda de apólices no próximo ano em meio à melhora da economia, com redução nos índices de desemprego e também nos indicadores de violência, o que reflete ainda na sinistralidade. A companhia está disposta, inclusive, conforme ele, a flexibilizar seu apetite de riscos, o que, na prática, significa subscrever negócios que até então estavam fora do radar da companhia. “As perspectivas de crescimento de prêmios para 2019 são melhores, mas isso não significa que o faturamento crescerá mais. Pode ser que cresça menos porque quando o risco cai, o preço do seguro fica mais barato. Mas, em termos de unidades de apólices, temos de crescer num ritmo superior", avalia o diretor geral de Relações com Investidores da Porto. No segmento de veículos, do qual a seguradora é líder de mercado, o crescimento, conforme ele, “finalmente" aconteceu no terceiro trimestre deste ano. "Estamos focados em crescer a frota, mas dentro de parâmetros sustentáveis", destaca Picanço, sem abrir a meta da companhia para sua carteira de veículos em 2019.

Desova

O fim das eleições presidenciais no Brasil deve ajudar o mercado de seguros a vender mais no próximo exercício, mas também tende a destravar, conforme especialistas, uma série de negócios no âmbito do mercado de fusões e aquisições (M&A. na sigla em inglês). Uma das tratativas mais aguardadas e a continuidade da venda do balcão de seguros da Caixa Econômica Federal. O processo, iniciado no começo deste ano, atraiu cerca de 20 players do mercado, incluindo nomes como SulAmérica, BB Seguridade, holding de seguros do Banco do Brasil, além da própria francesa CNP Assurances, que já é sócia do banco em sua seguradora. Também é esperado desfecho em tratativas de vendas de carteiras, cujas conversas se arrastaram ao longo deste ano. No mercado de resseguros também são esperados movimentos. Além das conversas entre Terra Brasis, do Brasil Plural, e Austral, da Vinci Partners, outra transação que se comenta envolve a americana Markel, cuja operação no Brasil, que compreende uma seguradora e uma resseguradora, passou a ser presidida por Carlos Caputo por contada saída do ex-IRB Leonardo Paixão do comando do negócio securitário do grupo. Além de também estarem confiantes de que o mercado de seguros deve voltar à trajetória de dois dígitos de expansão em 2019, os advogados sócios do escritório Mattos Filho especializados em seguros Cassio Amaral e Thomaz Kastrup veem, inclusive, a possibilidade do desembarque de novos players no País. Estrangeiros não devem, contudo, iniciar operações do zero como quando da abertura do mercado de resseguros, há mais de uma década. "Podemos ter players estrangeiros fazendo aquisições no Brasil em meio à retomada da economia e do mercado de seguros e resseguros no próximo ano", prevê Kastrup.
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