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'Private banking' vê demanda por ativo externo aumentar

28Nov2017Nov28,2017
Gestão patrimonial, Família e Sucessões; Tributário
Valor Econômico
Adriana Cotias

28/11/2017 às 05h00

Por Adriana Cotias | De São Paulo

Com a significativa redução da Selic de um ano para cá e uma nova tributação batendo à porta dos fundos fechados, as famílias mais afortunadas têm um incentivo extra para direcionar parte de seus recursos para fora do Brasil. Com todo o imbróglio político para avançar com as reformas e às vésperas de um processo eleitoral sem pistas sobre qual será o desfecho, essa é uma tendência que já começou a ser observada neste ano e deve ser um dos grandes temas no segmento de "private banking" em 2018.

Em fundos próprios "offshore", o brasileiro ainda tem a prerrogativa de pagar imposto só quando resgata os recursos - mecanismo conhecido como diferimento fiscal -, vantagem que vai potencialmente perder nas suas estruturas locais se a Medida Provisória 806 for convertida em lei até meados de dezembro. E já tem investidores repensando a estratégia de repatriar recursos regularizados.

Contando apenas os investimentos em carteira, os brasileiros tinham US$ 40,8 bilhões no exterior, segundo as estatísticas preliminares do Banco Central (BC) referentes a outubro, um incremento de 30,1% em relação a dezembro do ano passado. Só em ações fora, segmento que teve valorização expressiva neste ano, o incremento foi de 37,7%, para US$ 30,7 bilhões.

Olhando pelos dados de fluxo, no ano até outubro o investidor local destinou US$ 9,4 bilhões para aplicações em portfólio fora do Brasil, em comparação a saques de US$ 362 milhões no mesmo período de 2016.

"As mudanças da [Medida Provisória] 806, a repatriação, são estruturais, mas há fatores cíclicos também que estimulam olhar para fora", diz o executivo responsável pela alocação do BTG Pactual, Enio Shinohara. "A queda dos juros nominal e real no Brasil é um grande motivador para que os aplicadores busquem alternativas com retorno esperado maior e isso inclui os investimentos no exterior."

Nesse sentido, o executivo do BTG acredita que ter um time integrado na gestão de investimentos locais e offshore é uma vantagem na atuação do banco brasileiro, que conseguiu, segundo ele, capturar uma parcela do dinheiro regularizado nos programas de anistia. A instituição tem escritórios nos Estados Unidos, Chile e Colômbia e consegue oferecer serviços financeiros na Ásia e na Europa por meio de uma parceria com o suíço European Financial Group. "Nós conseguimos atacar o pool de capital. É ainda uma oportunidade, uma janela que não se encerrou."

O BTG Pactual fechou o terceiro trimestre com R$ 84,4 bilhões sob gestão, com grande parte do bolo, o equivalente a R$ 55,6 bilhões, em fundos de investimentos. A instituição não abre o total de ativos no exterior, mas Shinohara sinaliza que a alocação média é de 15% e diz ver espaço para ampliar essa fatia. Para ele, as oportunidades estão não só nos Estados Unidos, o mercado mais líquido e com maior proximidade cultural, como também na Europa e Ásia, com a China oferecendo boas opções.

"As pessoas estão viciadas em juros alto e deixam de olhar muitas classes de ativos interessantes. O investidor tem, por exemplo, acesso à renda variável no Brasil, mas não a um segmento que é dominante fora, como o de tecnologia ou a cadeia de valor do segmento de saúde, não só farmácias, mas provedores de serviços hospitalares, que é um setor líquido e amplo nos Estados Unidos e na Europa", cita. Ele acrescenta que o brasileiro também está fora da categoria de alternativos, não só dos hedge funds, mas também de fundos de private equity, venture capital ou ainda alocações menos corriqueiras, como a concessão de crédito para operações de leasing financeiro de aeronaves.

O ano de 2017 foi, em grande parte, um período em que o investidor ganhou dinheiro localmente ao se apropriar da queda dos juros, da alta da bolsa e da valorização do real. Mas, olhando à frente, o mercado externo tende a ganhar mais visibilidade, afirma Alexandre Gartner, superintendente-executivo do private banking do Bradesco.

"Após a queda da taxa Selic, várias classes de ativos, incluindo a de internacionais, têm despertado maior interesse. Já aconteceu ao longo deste ano, e o movimento deve ganhar robustez em 2018. O cliente vai buscar investimentos com maior perfil de risco e o mercado internacional se coloca como alternativa importante", diz Gartner.

Nesse campo entram como opções desde os multimercados tradicionais que têm posição importante no exterior, os fundos de BDR (recibos de ações estrangeiras listados na B3) até a possibilidade de ter uma conta no exterior a fim de acessar uma gama de ativos muito maior, lista Gartner. O executivo acrescenta que, mesmo que não houvesse a MP 806, a diversificação internacional tem de ser parte integrante do portfólio.

Para atender as novas demandas, Gartner diz que o banco já tem uma estrutura robusta no exterior com o atendimento na Europa a partir de Luxemburgo ou do escritório em Londres, com uma parte do time de gestão de fortunas baseado lá. Há ainda unidades em Nova York e Cayman. O Bradesco também está no processo de estabelecer um escritório em Miami.

No conjunto, os private banking brasileiros chegaram a setembro com R$ 949,5 bilhões sob o seu guarda-chuva, um incremento de 14,18% em relação a dezembro de 2016. Os fundos reservados ou exclusivos, alvo da MP, reuniam R$ 193,8 bilhões e havia outros R$ 22,5 bilhões em FIPs familiares.

Nessa toada da diversificação internacional, os fundos globais também vêm ganhando fama no Brasil, principalmente as carteiras que oferecem "hedge cambial", segundo Giuliano de Marchi, responsável pela área comercial do J.P. Morgan no Brasil. "A indústria está passando por um momento único de mudança, com a taxa de juros podendo chegar perto de 6,5% no ano que vem. É uma mudança secular que, junto com a instabilidade do mercado por questões políticas, pede uma alocação maior em outros riscos. Nosso diferencial é o mercado internacional que vai crescer muito no Brasil."

A gestora do banco americano tem hoje um patrimônio de quase R$ 1 bilhão investido em três estratégias que compram cotas de fundos globais da instituição, em comparação a R$ 300 milhões no início do ano. No primeiro semestre de 2018, o executivo espera distribuir no país outras duas carteiras internacionais, uma de bônus globais com retorno absoluto que investe em qualquer ativo de renda fixa mundo afora, e uma "long-short", de arbitragem em ações.

Campeã de audiência no país tem sido a gigante americana Pimco, que tinha um patrimônio de R$ 200 milhões no início do ano no seu veículo atrelado ao Pimco Income e reúne atualmente quase R$ 9 bilhões, segundo dados da Morningstar.

No mercado como um todo, de Marchi, do J.P., contabiliza 45 mil cotistas nos veículos locais (conhecidos como "feeders") que acolhem dinheiro de investidores brasileiros para aplicar em fundos fora do país, saindo de um universo de cerca de 5 mil no início do ano.

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