Sign In

   

ONU lança manual de diversidade para empresas

2Jul2018Jul2,2018
Correio Braziliense
Thays Martins* , Marília Lima* , Eduarda Esposito*

Em comemoração ao Dia do Orgulho LGBTI, a Organização das Nações Unidas apresenta padrões de conduta para que empresas brasileiras sejam mais tolerantes e inclusivas. O intuito é mudar um quadro alarmante de discriminação no mercado de trabalho

O Dia do Orgulho LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e Intersexuais) foi comemorado na última quinta-feira. Quando o assunto é mercado de trabalho, porém, não há muito o que se festejar: esses trabalhadores ainda são discriminados no mundo corporativo. De acordo com estudo da consultoria Santo Caos, 43% dessa população sofre com o preconceito pela orientação sexual ou pela identidade de gênero no trabalho. Outra pesquisa da empresa de recrutamento Elancers mostrou que duas a cada 10 empresas não contratariam pessoas LGBTI para cargos de chefia. Apesar de o atraso ainda ser grande, há companhias que entenderam que investir em diversidade traz mais chances de sucesso. Segundo o Banco Mundial, o custo da discriminação sexual poderia corresponder a 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Para orientar e incentivar que empregadores ao redor do globo sejam mais tolerantes e diversos, a Organização das Nações Unidas (ONU) acaba de lançar como parte da campanha Livres e iguais, os Padrões de Condutas para Empresas. São cinco tópicos com recomendações que empresas devem seguir. De acordo com Ângela Pires Terto, oficial de direitos humanos da ONU e coordenadora da campanha Livres e Iguais no Brasil, o objetivo é que as instituições mudem o comportamento para que, assim, a sociedade também se transforme. “As empresas têm um poder de influência muito grande, afinal boa parte do tempo estamos trabalhando. Temos de promover mudanças para que as pessoas LGBTI possam ser quem realmente são, amar quem quiserem e viver uma vida digna”, diz.

Advogado no escritório Bento Muniz, Flanklyn Gomes Silveira, 26 anos, se sente respeitado no ambiente de trabalho e comemora os padrões recomendados pela Organização das Nações Unidas. “O manual veio para nos ajudar. Homossexuais não ocupam muitos cargos de direção. Com o apoio da ONU, isso pode mudar”, acredita. A aceitação laboral é de suma importância, ainda mais que existe intolerância até no seio familiar. Quando Franklin se assumiu gay, foi expulso de casa. “Mas, hoje, meus pais conseguem ver que um homossexual pode, sim, ser bem-sucedido no trabalho. Minha mãe sente orgulho porque consegui me formar, trabalho num escritório renomado e moro numa cidade de classe média alta, Águas Claras”, diz. Franklin se sente respeitado no trabalho, mas enfrentou situações adversas. “No meu primeiro estágio, colegas faziam piadas. Hoje, enfrento e deixo minha homossexualidade bem clara, inclusive em entrevistas de emprego, e consegui ser reconhecido”, comemora.

O estudante de direito Daniel Portela, 26 anos, também considera positiva a iniciativa da ONU. "Acho muito importante as empresas e os órgãos terem essa visão de como a comunidade funciona. As recomendações da Organização das Nações Unidas ajudam a dar visibilidade aos LGBT e também promovem melhor aceitação e respeito", diz. Estagiário na Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, ele, que é homossexual, diz nunca ter sofrido discriminação no trabalho. "Porém, eu sei que isso acontece", relata.

No mundo inteiro, mais de 140 empresas anunciaram publicamente apoio aos padrões da ONU; das quais, 17 são brasileiras. Uma delas é o escritório de advocacia Mattos Filho. Com unidades em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Londres e Nova York, a sociedade emprega mais de 1.000 pessoas. De acordo com Maricí Giannico, sócia do escritório em Brasília, a firma desenvolve diversas ações para promover a diversidade. “Temos uma atuação no sentido de prevenir violações de direitos humanos”, conta. De acordo com Ricardo Sales, consultor em diversidade da Universidade de São Paulo (USP), o fato de a ONU propor padrões a serem seguidos significa muito. “A instituição tem credibilidade, e é natural que tenhamos a adesão de grandes empresas”, diz. Ele ressalta que o Brasil conta com outras iniciativas, como o Fórum de Empresas e Direitos LGBT, formado por 56 instituições que firmaram compromissos de respeito aos direitos humanos.

Ricardo Sales, que é doutorando em políticas de diversidade nas organizações, destaca que a importância desse tipo de ação está exatamente no fato de a sexualidade das pessoas interferir nas relações de trabalho. “Há dificuldades de vários tipos. No caso de gays, lésbicas e bissexuais, há o preconceito. Um em cada três está fora do armário, então alguns não produzem muito por estarem infelizes. No caso das pessoas trans, existe a dificuldade de acesso ao trabalho”, ressalta.

A presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Keila Simpson Sousa, reforça a afirmação. “Se observar o comércio e qualquer outro setor, dificilmente você verá pessoas trans trabalhando”, elenca. “Qualquer pessoa trans que procure emprego terá a vida sexual levada em conta. Outro fator de exclusão é o nome diferente na identidade”, completa. A dica de Ricardo Sales para os funcionários é: “Não reforce comentários homofóbicos, aquelas piadas que circulam nas empresas”.

Ângela Pires destaca que existem várias formas de iniciar mudanças. “Um exemplo é promover o ingresso de pessoas trans, alterar o procedimento para que o nome social seja respeitado no crachá e no e-mail, promover capacitações. Além disso, tem ações que dizem respeito a como essas companhias se reportam aos consumidores. Por exemplo, no Dia dos Namorados, várias empresas fizeram propagandas com casais homoafetivos”, explica. Para Keila, esse manual da ONU tem muita importância, principalmente por colocar a questão LGBTI em pauta. “É necessário mudar para que as pessoas trans não tenham a prostituição como via de regra. Que a população brasileira possa entender que sexualidade não tem a ver com trabalho e que, no futuro, possamos no orgulhar de viver no Brasil.

Campanha Livres e Iguais

Lançada em julho de 2013, pelo Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh) a ação tem o objetivo de promover direitos iguais e tratamento justo para pessoas LGBTI. No Brasil, tem sido implementada desde 2014 sob a liderança do Escritório de Coordenação da ONU Brasil. Os Padrões de Conduta para as Empresas haviam sido publicados no ano passado, mas o evento de lançamento na América Latina ocorreu na última terça-feira (26), na Casa Natura Musical em São Paulo, e contou com a participação dos cantores brasileiros Liniker, Johnny Hooker e Aíla. Atividades semelhantes ocorreram em Nova York, Toronto, Paris, Londres, Genebra, Davos, Nairóbi, Melbourne, Mumbai, Hong Kong e Tóquio.

Passo a passo da tolerância
Os cinco compromissos propostos pela ONU. Confira o documento completo em Em todas as ocasiões

1) Respeitar os direitos humanos. Empresas devem desenvolver políticas, exercer a devida diligência e remediar impactos adversos para garantir que elas respeitem os direitos humanos de pessoas LGBTI. Empresas devem também estabelecer mecanismos para monitorar e reportar o cumprimento das normas de direitos humanos.

No local de trabalho

2) Eliminar a discriminação. Empresas deveriam garantir que não houvesse discriminação no recrutamento, na contratação, nas condições de trabalho, nos benefícios, no respeito à privacidade ou no tratamento de situações de assédio.

3) Apoiar. Empresas devem promover um ambiente positivo e afirmativo para que funcionários LGBTI possam trabalhar com dignidade e sem estigma.

No mercado

4) Prevenir outras violações de direitos humanos. Empresas não devem discriminar fornecedores, distribuidores ou clientes LGBTI e devem usar sua influência para prevenir discriminação e abusos relacionados da parte de seus parceiros de negócios.

Na comunidade

5) Agir na esfera pública. As empresas são encorajadas a contribuir para impedir abusos de direitos humanos nos países em que operam. Para isso, elas devem se consultar com a comunidade local para identificar os passos que devem tomar — incluindo incidência no debate público, ações coletivas, diálogo social e apoio a organizações LGBTI, questionando ações abusivas de governos.

Os números preocupam...

- Funcionários LGBTI que “estão no armário” têm 73% mais chance de deixar seus postos de trabalho, em comparação com funcionários que não estão (Harvard Business Review, 2016).

- 27% de funcionários LGBTI que estão “no armário” no ambiente profissional afirmaram que esconder sua identidade os impedia de compartilhar ideias com seus pares (Center For Talent Innovation, 2016).

- Somente 36% da população LGBTI se assume para os colegas de trabalho e 73% testemunham atos de homofobia no local de trabalho (Brazil 2017 Report — Out Now Global LGBT2030 Study)

- Mais de um terço dos países criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo e expressões de gênero não conformes (Acnudh).

- No Brasil, ocorre um assassinato motivado por homofobia ou transfobia a cada 27 horas. Apenas 25% dos casos são investigados, e menos de 10% dos autores são identificados e punidos (Grupo Gay da Bahia, 2015).

- Pessoas trans são 51% das vítimas da LGBTfobia no país (Secretaria de Direitos Humanos, 2012).

- Enquanto a expectativa de vida do brasileiro médio é de 75 anos (IBGE), a de uma pessoa trans é de 35 anos (Comissão Interamericana de Direitos Humanos, 2015).

- No Brasil, estima-se que, a cada dois dias, uma pessoa trans é assassinada. Mais de 170 mortes foram registradas em 2017. No primeiro trimestre de 2018, foram 50 casos. Entre os países em que essa informação está disponível, o Brasil lidera o ranking global de assassinatos de pessoas trans — e mata quatro vezes mais que o segundo colocado, o México (RedeTrans, Antra, Transgender Europe).

Para entender a causa

A Serasa Experian e o Veduca, plataforma de cursos, lançaram curso on-line, na última semana, para explicar o significado e a diferença entre identidade de gênero e orientação afetivo-sexual. Disponível de forma gratuita e com certificação ao fim, o curso LGBT+: Conceitos e Histórias tem como objetivo levar conhecimento à população em geral, diminuindo o preconceito, muitas vezes causado pelo desconhecimento, e incentivando o respeito ao próximo. A capacitação tem duração aproximada de seis horas e aborda informações sobre quatro características: sexo biológico, identidade de gênero, expressão de gênero e orientação afetivo-sexual. Inscrições: bit.ly/LGBTcurso.

Leia!

Do direito à diversidade ao direito da diversidade
Organização: Mattos Filho
Disponível gratuitamente em bit.ly/direitoadiversidade
A obra é composta por vários artigos, abordando principalmente direitos humanos

*Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa
Ver notícias do escritório