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Expectativa de mais negócios neste ano

29Mai2018May29,2018
Seguros, Resseguros e Previdência privada
Valor Econômico

​Por Guilherme Meirelles (Valor Financeiro – Seguros, Previdência e Capitalização) 

Com menor intensidade, aquisição de carteiras no Brasil por parte de seguradoras internacionais deve se manter em 2018

O movimento de consolidação no setor de seguros veio em um ritmo menos intenso do que em anos passados, quando grupos estrangeiros desembarcaram no Brasil e adquiriram algumas das mais tradicionais companhias nacionais, como a Marítima pela japonesa Sompo, em 2016, e a união entre o Banco do Brasil (BB) e a espanhola Mapfre, em 2011. Em comum, as empresas compradoras desejam expandir seus mercados e ganhar escala. Já quem se desfaz, opta por continuar com carteiras mais rentáveis e com as quais tenha mais expertise. Para este ano, o cenário promete fortes emoções.

No fim de abril, a SulAmérica comunicou ao mercado que está disposta a abrir mão de suas carteiras de vida, previdência e capitalização, ramos em que os ganhos de capital dependem de escala e de uma taxa de juros mais amigável, o que não vem ocorrendo nos últimos meses. Apesar de permanecer com uma seguradora multilinha, a expectativa é que a SulAmérica concentre seus esforços nos ramos de saúde e autos. Uma sinalização neste sentido havia sido manifestada em 2015, quando a empresa vendeu a carteira de grandes riscos para a francesa AXA e a de seguros habitacionais para a Pan Seguradora.

Algumas das transações são globais e seus impactos não podem ser mensurados no Brasil, como é o caso da megaoperação anunciada em março, na qual a AXA pagou US$ 15,3 bilhões pelos ativos da americana XL, que atua no Brasil com o braço XL Catlin, nos ramos empresariais, em segmentos especializados como riscos aeronáuticos, operadores portuários e seguros de crédito. A primeira movimentação global do ano, com reflexos diretos no Brasil, foi no ramo de garantia estendida. Em janeiro, por US$ 2,5 bilhões, a Assurant anunciou a compra da The Warranty Group (TWG), uma das principais na área de varejo e de proteção financeira. O negócio torna a Assurant a segunda companhia global em garantia estendida de bens e de automóveis. Entre as empresas do conglomerado TWG está a seguradora Virgínia Surety Company Inc, que atua no Brasil em garantia estendida com clientes de grande porte como Walmart, Extra e Honda. No ano passado, a Virgínia registrou prêmios diretos de R$ 330,76 milhões, abaixo apenas da Zurich.

Em 2018, haverá mudanças no ranking. Em maio do ano passado a Assurant adquiriu a carteira de varejo (garantia estendida, danos acidentais e roubo e furto de bens) da AIG, que incluiu cerca de 1,1 milhão de certificados de 25 clientes (varejo e fabricantes) como a Whirlpool (das marcas Brastemp e Cônsul). "Nossa meta é estar entre os primeiros do mercado em garantia estendida. Continuamos focados em expansão e oportunidades, seja em novas soluções, em parceria ou em empresas que queiram desinvestir", afirma Ricardo Fiúza, presidente da Assurant. Em 2017, a empresa registrou R$ 284,09 milhões em garantia estendida, obtendo a quarta posição do ranking, segundo a Susep.

Para Rogério Gollo, sócio da PwC, o apetite das seguradoras internacionais está relacionado com a estabilidade política do país e com a previsibilidade dos rumos na economia. "No mercado doméstico, havia uma tendência de consolidação que esfriou em 2017, com operações apenas em nichos, visando ganhos de escala. A perspectiva ê que haja uma retomada, tanto por parte das seguradoras como das corretoras multinacionais. Acredito que as seguradoras independentes (não ligadas a bancos) possam ser alvo dos estrangeiros no futuro", afirma.

No campo das corretoras, a previsão de Gollo se mostrou acertada. As duas principais transações envolveram a participação de corretoras americanas adquirindo concorrentes nacionais, como a compra da Admix pela Aon, por R$ 1,2 bilhão, e a operação da paulista AD pela Marsh, no fim de 2016. A AD era especializada em pequenas e médias empresas do setor sucroenergético no interior paulista. A Marsh tem em sua carteira cerca de R$ 4 bilhões em prêmios, segundo sua assessoria de imprensa.

Para ingressar ou buscar expansão no mercado nacional, as seguradoras estrangeiras adotam duas estratégias: adquirir uma empresa que esteja atuando no Brasil ou firmar uma parceria com um grande banco, como fez a Zurich com o Santander, em 2011. No ano passado, a companhia suíça, que tem cerca de 20 milhões de apólices em massificados no Brasil, avançou nos ramos de afinidades, seguro-viagem e seguros corporativos por meio da aquisição dos ativos da australiana QBE na América Latina. "A operação dobra a posição da companhia na Argentina e reforça a nossa posição de liderança em afinidades no mercado varejista nacional", diz Edson Franco, CEO da Zurich. Para ele, o sucesso de uma seguradora multilínha (a Zurich só não opera em saúde) no mercado nacional só é possível por meio de uma grande rede de distribuição, com a presença de corretores, canais bancários e plataformas digitais.

O meio digital foi o canal encontrado para a parceria entre a HDI e o banco Santander. O resultado será a seguradora digital Santander Auto, que deve entrar no mercado assim que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cadê) aprovar a joint venture. Para a HDI, sexta empresa no ramo de autos, o acordo representa um retorno ao canal bancário após a saída da carteira do HSBC, que foi incorporada pelo Bradesco. "O foco será no mercado de veículos usados comprados via financiamento pelos clientes do banco", diz Murilo Riedel, presidente da HDI Seguros. Por questões estratégicas, ele não revela detalhes do modelo de negócio, mas adianta que a Santander Auto (nome já definido) funcionará nos moldes de uma startup dentro do Santander, que terá uma equipe dedicada ao negócio. Apesar de ser líder no financiamento de veículos, o Santander não dispõe de um seguro próprio. Segundo comunicado do banco, a parceria "vai disponibilizar aos clientes uma forma mais simples de contratar e utilizar o seguro".

Igualmente no modelo de joint venture, a Swiss ReCorporate Solutions firmou um acordo (60% e 40%, respectivamente) com a Bradesco Seguros, para a distribuição de seguros de grandes riscos, principalmente no ramo de seguro-garantia. "É uma operação de complementariedade de carteiras. O Bradesco conta com vasto número de clientes em todas as áreas, mas não tem expertise em grandes seguros de risco", afirma Robert Bittar, presidente da Escola Nacional de Seguros.

Para Luciano Calheiros, presidente da Swiss Re Corporate Solutions no Brasil, o acordo abre portas para novas oportunidades. "Há potencial em seguro-agrícola e pecuário, tanto em produtos tradicionais como mais sofisticados, com soluções diferenciadas para grandes produtores, além do seguro da plantação. Vamos estreitar o relacionamento com a área corporate do Bradesco." A operação acrescenta ainda o seguro-executivo D&O (directors and officers), que não conta na prateleira do Bradesco, que poderá oferecê-lo aos seus clientes.

Para o advogado Marcelo Mansur, do escritório Mattos Filho, a decisão do Bradesco representa uma tendência dos grandes bancos em abrir mão dos produtos de grandes riscos e focar em ramos em que haja mais afinidades com o perfil de seus clientes. "Esse caminho havia sido apontado, quando o Itaú vendeu sua carteira para a ACE." Mansur aponta para a baixa participação das seguradoras nacionais no mercado de grandes riscos. Com uma eventual retomada de obras de infraestrutura, o advogado acredita que multinacionais americanas, japonesas e alemãs acionem seus radares em busca das poucas companhias nacionais que operam no setor.

No caso das seguradoras nacionais, há uma propensão de ocorrerem negócios que envolvam compras pontuais de carteiras. Segundo Thomaz Kastrup, do escritório Mattos Filho, as operações devem ficar restritas a situações em que uma seguradora busque expandir um ramo em que tenha presença e busque conquistar uma participação mais relevante. "O ramo de veículos, por exemplo, exige longo tempo de maturação, o que pode ser desinteressante para as companhias que não o considerem prioritário", citando o exemplo da AIG, que vendeu há dois anos a sua carteira para a Porto Seguro.

Focada nos ramos de vida, previdência e capitalização, a Icatu adquiriu, em janeiro, a carteira de capitalização da francesa Cardif. "A Cardif atuava fortemente em capitalização na modalidade de incentivos, que é uma área que nos interessa", afirma Luciano Snel, presidente da Icatu Seguros. No ramo de capitalização, a Icatu está entre as seis maiores do país, com um volume de prêmios de R$ 1,04 bilhão em 2017 -já a Cardif fechou o ano com R$ 65,82 milhões. No mesmo ramo, a Icatu firmou, no fim de 2017, uma parceria com o Banrisul para a venda de títulos de capitalização. O objetivo é aproveitar o canal bancário nos Estados da região Sul, onde o banco é mais presente. O modelo de parceria entre as duas instituições existia na distribuição de seguros de vida e de previdência. "Nosso apetite permanece, caso surjam oportunidades nos ramos em que atuamos", diz Snel.

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Fonte: escritório Mattos Filho com dados da consultoria Transactional Track Record (TTR) e consultoria e auditoria PwC

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