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​Estrangeiras dominam a disputa

1Out2018Oct1,2018
Óleo e Gás; Infraestrutura e Energia
O Globo

Governo levanta r$ 6,8 bi. shell e exxon arrematam as áreas mais valiosas

A5ª Rodada do pré-sal —último leilão de petróleo no governo Temer, uma semana antes das eleições — foi marcada pela disputa acirrada entre empresas estrangeiras e por uma participação tímida da Petrobras. Com todos os quatro blocos arrematados (dos quais três na Bacia de Santos e um na Bacia de Campos), o certame arrecadou R$ 6,82 bilhões em bônus de assinatura, com um ágio médio de 170,58%. Segundo executivos, diante da possibilidade de mudança de regras para o setor de petróleo no próximo governo, as petroleiras viram o leilão como uma oportunidade importante para abocanhar áreas no pré-sal. As áreas mais valiosas foram arrematadas por consórcios liderados por Shell e ExxonMobil. O leilão foi realizado no regime de partilha, no qual é vencedora a empresa que oferece a maior fatia de óleo-lucro (percentual de petróleo que será destinado à União após descontos de gastos com exploração e produção). O ágio ficou acima das expectativas, o que fez o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Décio Oddone, elevar a previsão de arrecadação com royalties e participações especiais de R$ 180 bilhões para R$ 240 bilhões durante o período de contrato,de 35 anos. Os investimentos mínimos previstos na fase de exploração somam R$ 1 bilhão.

GABRIEL DE PAIVA

Ganhos. Com demanda alta no leilão, previsão de arrecadação com royalties em 35 anos passou para R$ 240 bilhões

Os lances mais agressivos foram registrados na disputa pelo bloco de Saturno, na Bacia de Santos, considerado o de maior potencial petrolífero. Ele foi arrematado pelo consórcio formado pela anglo-holandesa Shell, que será operadora, e a americana Chevron. As empresas ofereceram percentual de óleo-lucro de 70,2%, o que significa ágio de 300,23% em relação à oferta mínima prevista no edital. A área foi disputada ainda pelo consórcio formado pela americana ExxonMobil e pela QPI, do Qatar.

RESPEITO AOS CONTRATOS

A Petrobras arrematou apenas o bloco de Sudoeste de Tartaruga Verde, na Bacia de Campos, oferecendo o percentual mínimo de 10,01% e sem concorrência. Segundo especialistas, a estatal já tem um amplo portfólio no pré-sal e só levou o bloco porque já é dona da área adjacente, batizada de Tartaruga Verde. Para Oddone, com o resultado do leilão,o setor ganhou diversidade: —O sucesso (do leilão) mostra que (ele) não é mais dependente da Petrobras. Agora teremos seis operadoras no présal. Se tiver uma crise novamente com a Petrobras, será apenas com uma empresa. Criamos uma diversificação e pulverização de atividades, e isso dilui o risco. É uma garantia para a sociedade. O secretário executivo do Ministério de Minas e Energia (MME), Marcio Félix, lembrou que, anteriormente, se a Petrobras não entrasse na disputa, não havia leilão. E ressaltou que o cenário mudou: — Houve competição olímpica entre os diferentes operadores. Podemos estar desacostumados com o fato de a Petrobras não ser protagonista. A advogada Adriana Lontra, do escritório Barbosa, Müssnich, Aragão, disse que o setor já esperava que a Petrobras mostrasse apetite reduzido em razão de sua grande carteira de projetos no présal e na Bacia de Campos. O presidente da Shell, André Araújo, disse que a empresa consolida sua participação no pré-sal. Com produção de 350 mil barris por dia no país, o executivo disse que a petroleira foi “para ganhar” e ressaltou que acredita na continuidade da agenda de leilões no país:

— Já vivemos muita volatilidade

a segunda área mais valiosa foi arrematada por um consórcio formado por ExxonMobil e QPI, que ofereceram óleo lucro

o bloco foi arrematado pelo consórcio formado por BP, a colombiana Ecopetrol e a chinesa CNOOC, que ofereceu percentual à União de 63,79%, o que significa ágio de 157,01%. Eles superaram a oferta do consórcio formado por Total, CNODC e Petrobras.

sem disputa, foi arrematado pela Petrobras com o percentual de 10,01% no Brasil. É um país que respeita contratos. E continuamos avançando em nossas propostas. Esperamos que o próximo governo continue entendendo o papel que a indústria tem e que mantenha as regras mais claras e com previsibilidade. A ExxonMobil, que completou um ano de sua volta ao país, mostrou que seu projeto é fincar pé no pré-sal, ao disputar dois dos maiores blocos. Arrematou a área de Titã, como operadora, em consórcio com a QPI, com ágio de 146,84%. Em um ano, a gigante americana arrematou participações em 26 blocos, incluindo o do leilão ontem. — Acreditamos no cronograma que a ANP está desenvolvendo, de licitações contínuas —afirmou a presidente da empresa, Carla Lacerda.

‘COLCHÃO DE ROYALTIES’

A BP arrematou o bloco de Pau-Brasil e será, pela primeira vez, operadora no país. — Vencemos com uma pequena margem, o que indica que as empresas precificaram corretamente. Temos tecnologia e expertise. Vamos trazer isso ao Brasil —disse Felipe Arbelaez, presidente para América Latina da BP. Para Giovani Loss, especialista em petróleo e gás do escritório Mattos Filho, o resultado foi positivo, mas há apreensão quanto à continuidade da agenda de leilões: —Espero que o próximo governo perceba o sucesso desse modelo e dê continuidade. O ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, fez um balanço das iniciativas do governo para atrair investimentos ao setor e fez votos de que as regras permaneçam no próximo governo: — Temos que garantir transparência, segurança jurídica e previsibilidade para que toda essa riqueza sirva cada vez mais ao país. Diante do resultado da disputa e do aumento da perspectiva de arrecadação, Oddone, da ANP, sugere usar os royalties para neutralizar a alta da cotação do petróleo no preço dos combustíveis.O barril está acima de US$ 80, e o setor se queixa da indefinição para a política de preços do diesel após o fim do ano, quando acaba a previsão de subsídio. Algumas distribuidoras já manifestaram receio de uma corrida aos postos no fim do ano.

— A ANP sugeriu usar os royalties e as participações governamentais como colchão para neutralizar o aumento do preço do petróleo. A sugestão já foi enviada ao Ministério da Fazenda —destacou Oddone.
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