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Emissão de dívida local ganha força

31Jul2017Jul31,2017
Mercado de capitais
Valor Econômico

Silvia Rosa​

O mercado de capitais local voltou a ficar atrativo para as empresas como alternativa de financiamento, após experimentar uma desaceleração entre o fim de maio e início de junho diante da crise política. As estimativas apontam para um volume de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões em novas ofertas de debêntures no segundo semestre. Desse total, cerca de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões devem ser de papéis emitidos sob o âmbito da Lei 12.431, que contam com o benefício da isenção fiscal para pessoas físicas. 

Os bancos, contudo, não descartam a possibilidade de o volume superar os cerca de R$ 25,9 bilhões registrados nos primeiros seis meses do ano - R$ 24,3 bilhões via debêntures e R$ 1,6 bilhão em títulos de dívida incentivados -, o que representou avanço de 16,3% em relação ao mesmo período de 2016. 

"As emissões de debêntures e certificados de recebíveis do agronegócio [CRA] devem ultrapassar o volume de mais de R$ 70 bilhões registrado no ano passado", diz Rafael Noya, diretor da área de banco de investimento do Santander Brasil. O banco tem mais de 15 mandatos de ofertas em execução, incluindo CRAs. 

Entre as operações em andamento, destaque para as emissões de debêntures de R$ 5 bilhões da Petrobras e R$ 700 milhões da MRV, além de uma oferta de R$ 1,5 bilhão da Arteris para financiar os investimentos da Rodovia dos Calçados, arrematada neste ano, que deve contar com uma parte de debêntures incentivadas. 

Em julho, já foram levantados pelo menos R$ 3,5 bilhões em debêntures. A concessionária do sistema AnhangueraBandeirantes (Autoban), por exemplo, acaba de concluir uma emissão de R$ 716,5 milhões em debêntures de infraestrutura. "A incerteza [política] em maio tinha feito a gente segurar algumas operações", diz Felipe Wilberg, diretor de renda fixa do Itaú BBA. 

As empresas estão aproveitando a melhora das condições em termos de custo e demanda do mercado para antecipar as captações de olho em um cenário político de maior incerteza no ano que vem por conta das eleições, avalia o advogado Bruno Tuca, sócio da área de mercado de capitais do Mattos Filho. O escritório está até prevendo novas contratações de profissionais para atender o volume de trabalho com o aumento das ofertas. O Mattos Filho está com seis a sete operações em andamento, entre debêntures e CRAs. "Há algumas operações em andamento do setor de energia, especialmente de distribuição", afirma Tuca. 

Do lado da demanda, também houve aumento do interesse por ativos de maior risco tanto por parte de investidores pessoas físicas quanto institucionais, por conta do ciclo de afrouxamento monetário, que levou a Selic para a casa de um dígito, e do volume menor de títulos de bancos como letras de crédito imobiliário (LCI) e do agronegócio (LCA) - que oferecem isenção fiscal para pessoas físicas. "Os bancos estão emitindo papéis com taxas e volumes menores, uma vez que estão com alta liquidez", diz Paulo Laranjeira, responsável por renda fixa local do Bradesco BBI. 

Um sinal do aumento da demanda por parte dos investidores é a redução da participação de intermediários e participantes da oferta na subscrição das debêntures, que caiu para 34,6% no primeiro semestre, ante 87,9% no mesmo período do ano passado. 

O segundo semestre também deve ser marcado pelo aumento das debêntures de infraestrutura. Há uma demanda expressiva para emissão desse tipo principalmente por parte das distribuidoras de energia elétrica. No fim de junho, o Ministério de Minas e Energia (MME) publicou portaria que simplifica o processo para emissão de debêntures incentivadas por essas empresas. 

A partir de agora, os projetos de investimentos considerados para as emissões de debêntures incentivadas passam a contemplar valores anuais de investimentos, no âmbito do plano de desenvolvimento de distribuição (PDD). Antes, as empresas tinham que apresentar ao MME cada projeto separadamente, o que atrasava a aprovação. "Isso aumentou consideravelmente o volume de emissões das distribuidoras", afirma Laranjeira, do Bradesco BBI. Há uma oferta em andamento de R$ 600 milhões em debêntures de um projeto de linhas de transmissão com vencimento de 14 anos, que contará com compartilhamento de garantias do BNDES. 

Algumas operações de financiamento dos leilões de transmissão realizados no ano passado devem começar a vir a mercado neste ano, afirma Alberto Zoffmann, chefe de project finance da XP Investimentos. A XP montou recentemente uma área de financiamento de projetos para prestar assessoria financeira a essas operações, que pode contar com a emissão de debêntures de infraestrutura.

A busca por ativos mais arriscados pelo investidor tem viabilizado ainda emissões de empresas com rating um pouco mais baixo do que o "AA", que vinha concentrando as operações. 

A Movida, empresa de locação de veículos controlada pelo grupo JSL, fechou neste mês a captação de R$ 400 milhões em sua primeira emissão de debêntures. Com prazos de três e cinco anos, a operação, coordenada pelo BTG Pactual e com esforços restritos de distribuição, recebeu o rating "A+" e atraiu uma demanda duas vezes maior do que o volume ofertado, o que contribuiu para uma redução do custo da operação. O papel com vencimento em 2020, por exemplo, saiu a CDI mais uma taxa de 1,55% ao ano, abaixo da taxa máxima que era de 2,50% ao ano. 

"Houve queda de cerca de 150 pontos-base no spread das emissões de dívida corporativa em relação às ofertas realizadas no ano passado", diz Daniel Vaz, chefe da área de mercado de dívida local do BTG Pactual. O banco está com cerca de seis operações de debêntures incentivadas sendo estruturadas. 

A MRV Engenharia é uma das empresas que está voltando a captar no mercado com melhores condições. A companhia está com uma emissão de R$ 700 milhões e oferece em uma das séries, com vencimento de três anos, uma remuneração de CDI mais 1,40% ao ano. Na emissão realizada no início do ano, a empresa pagou, para o mesmo prazo de vencimento, remuneração de 1,50% mais a variação do CDI, sendo que a taxa Selic naquele período estava em 12,25% e agora recuou para 9,25%. 

Embora o mercado doméstico continue com bastante liquidez para a compra desses papéis, Noya, do Santander, não espera uma queda maior das taxas nas emissões. "O espaço para um recuo já diminuiu e, abaixo desse patamar, o risco/retorno passa a ser assimétrico", afirma.

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