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Demanda forte no futuro

31Mai2017May31,2017
Seguros, Resseguros e Previdência privada; Societário/M&A
Valor Econômico
Marlene Jaggi

Mesmo com a economia paralisada, o movimento de aquisições não refluiu no setor de seguros e promete nova etapa de consolidação

Nem a crise econômica nem o impacto que o noticiário político tem sobre a imagem do Brasil no exterior tiraram o país do radar dos investidores interessados no mercado nacional de seguros. Do início de 2016 para cá importantes transações movimentaram o setor e, de acordo com consultorias e escritórios especializados, a demanda por aquisições continuará forte pelos próximos anos. O que falta é oferta, até porque as operações dos últimos anos já promoveram uma importante consolidação no setor. Mas sobram razões que mantêm o país atrativo, no longo prazo, aos olhos dos investidores.

Na temporada recente de fusões e aquisições, a área das corretoras registrou transações de peso, como a compra pela Aon da brasileira Admix, administradora de planos de saúde, por cerca de R$ 1,2 bilhão, e a aquisição, pela norte-americana Marsh, da AD, líder em corretagem de seguros no Estado de São Paulo, com sede em Bauru, por valor não divulgado. Do lado das seguradoras, a movimentação também foi intensa: a Prudential comprou a carteira de vida em grupo do Itaú, a Porto Seguro ficou com a carteira de automóveis da Chubb e da AIG e a CNP Assurance adquiriu 51 % da Pan Seguros e da Pan Corretora (operação que foi desfeita no começo deste ano). A transação mais comentada no período, porém, foi a associação entre a Swiss Re Corporate Solutions Brasil Seguros (SRCSB) e a Bradesco Seguros para a criação de uma das líderes no mercado de seguros comerciais de grandes riscos.

"Estamos terminando três anos de uma recessão sem precedentes na história, mas o panorama de fusões e aquisições de seguros não tem mudado muito", diz David Bunce, sócio da KPMG. Para ele, o fato de o número de transações ter caído de 17, em 2015, para 11, em 2016, tem relação com a forte consolidação ocorrida no setor. "Não existem tantas empresas para futuras transações no país, embora continue robusta a disposição de investidores estrangeiros de adquirir operações no Brasil", afirma.

A consolidação do mercado começou em 2014, quando o Itaú Unibanco vendeu a Itaú Seguros Soluções Corporativas para a ACE Seguradora, por R$ 1,5 bilhão, e continuou em 2015, com transações como a venda da Sul América Companhia de Seguros Gerais para a AXA Corporate Solutions e com a aquisição pelo Carlyle Group de 51 % da Tempo Participações por R$ 700 milhões. Um movimento que, segundo Alfredo Sneyers, sócio da PwC Brasil e líder de consultoria para serviços financeiros, reflete o redirecionamento estratégico das empresas. "Há uma tendência entre as companhias de se consolidarem como especialistas de operações e as aquisições as ajudam a ganhar volume", diz o consultor. "A estratégia é crescer naquilo em que são bons, o que leva à uma setorização dos seguros."

"É um setor sempre muito pujante", acrescenta Thomaz Kastrup, do escritório Mattos Filho, para quem a desaceleração do ano passado foi pequena. "A crise atrapalha se não se compra geladeira, não se vende seguro para o bem mas há linhas que cresceram, como o seguro de garantia judicial", exemplifica Marcelo Mansur, também do Mattos Filho. Para os sócios do escritório, além deste aspecto, favorece as operações de fusões e aquisições o fato de que as pequenas companhias precisam buscar alternativas quando não têm como se capitalizar. Outro ponto que estimula as transações é a alocação em certos riscos: "O Itaú transferiu sua carteira de grandes riscos para a ACE e o Bradesco preferiu se associar a experts internacionais na gestão de grandes riscos, o que sinaliza que os bancos de varejo estão se voltando para seu core business e negociando outros que não têm a ver com o negócio principal", observa Kastrup.

A transação entre AXA e SulAmérica feita em 2015 é um bom exemplo dessa teoria. "Conversamos com a família SulAmérica, uma companhia que é boa no varejo, saúde e automóvel e que tinha uma operação de riscos corporativos que não fazia parte do core business deles, mas que entra na estratégia da AXA, que se interessa por riscos corporativos", diz Philippe Jouvelot, presidente da AXA Brasil. No Brasil há apenas dois anos, a AXA fez outro importante movimento no ano passado: estabeleceu uma parceria com a Pernambucanas, pela qual a AXA administrará durante dez anos todos os seguros e assistências da varejista, respondendo pela venda de garantia estendida, proteção financeira, seguro residencial, perda e roubo de cartão.

Na visão do executivo, ainda há muitas seguradoras de pequeno porte que, diante das regras de Solvência II, Jouvelot. da AXA: regras de solvência dão mais poder às grandes poderão preferir o caminho da venda. Implantado na Europa no ano passado, o normativo estabelece, entre outras regras, que os controladores coloquem mais capital na empresa. "A Susep e a ANS estão promovendo o alinhando do mercado brasileiro de seguros às regras internacionais de solvência e os grupos familiares nem sempre querem investir mais podem considerar vender a companhia", diz Jouvelot. E um movimento que, segundo ele, em dez anos, deverá reduzir a um terço o atual número de operadoras no país.

Com um faturamento anual de 100 bilhões de euros e presença em 64 países, a AXA, hoje 17a colocada no ranking nacional das seguradoras, quer crescer. "Estamos indo aos poucos; aqui no Brasil ainda não atuamos nos ramos de automóveis, saúde e previdência", afirma. No Brasil a AXA faturou R$ 650 milhões no ano passado, valor que pretende dobrar neste ano.

Protagonista de uma das maiores transações na área, o grupo Swiss Re também aposta no potencial do mercado e em uma melhora do cenário no médio e longo prazos. "A criação da joint venture com a Bradesco Seguros é um exemplo do comprometimento do grupo com o mercado brasileiro; a parceria nos ajudará a continuar crescendo, mesmo neste momento turbulento pelo qual o país está passando", diz Luciano Calheiros, CEO da SRCSB desde Io de maio.

Segundo ele, a joint venture se beneficiará de uma diversificada carteira de negócios e oferecerá capacidade financeira, produtos diferenciados e serviços locais e globais de primeira linha a clientes e corretores. Pela transação, que só aguarda a aprovação do Banco Central e da Susep, a Bradesco Seguros assumirá 40% da participação acionária na SRCSB, enquanto a Swiss Re Corporate Solutions Ltd reterá 60%.

"Como resultado da integração, a SRCSB se tornará uma das líderes no mercado de seguros de grandes riscos no Brasil, com cerca de R$ 800 milhões de prêmios brutos emitidos, tornando-se uma das cinco maiores seguradoras neste segmento", diz Calheiros. A participação relevante do Bradesco na joint venture, segundo nota diretoria, reforça a convicção da instituição de que o seguro comercial de grandes riscos é um negócio promissor.

O que estimula negociações desse porte é o potencial do mercado brasileiro. A relação da indústria de seguros com o PIB é baixa (representa apenas 6% do PIB total do país) e o setor continua crescendo - a previsão da Susep para este ano é ficar entre os 9% de aumento do ano passado, podendo chegar a 11%, voltando aos habituais dois dígitos dos últimos anos. Além disso, de acordo estudos da Deloitte, o Brasil ficou com 25% das operações de M&A entre 2015 e 2016 e foi destino de 19% dos recursos dos grandes investidores no setor. "Isso mostra que o país é atrativo", diz Elias Zoghbi, sócio-Iíder da indústria de seguros da Deloitte no Brasil.

Entre os setores mais cobiçados para operações de fusões e aquisições está o de saúde suplementar. A movimentação na área não é recente há três anos, o fundo americano Bain Capital pagou R$ 2 bilhões pela Intermédica Notredame e agora estuda uma abertura de capital que pode movimentar cerca de R$ 1,5 bilhão e a venda de pelo menos uma fatia para um investidor estratégico internacional.

Mas o dinamismo continua. No ano passado, a seguradora britânica Bupa comprou o controle da operadora de saúde Care Plus e o grupo Mapfre adquiriu toda a carteira de clientes da operadora Sorriso. "E um setor que deve gerar negócios neste ano", diz Bunce, da KPMG. Outro mercado com viés de alta é o de planos de previdência privada. "A incapacidade do setor público vai provocar maior busca por alternativas privadas", diz Sneyers, da PwC.

Na avaliação de Zoghbi, também haverá movimento nas carteiras de grandes riscos, assim como novos players entrarão no mercado nacional. Segundo estudos da consultoria, as dez maiores seguradoras internacionais de vida e não vida têm entre 25% e 40% do total de prêmios, o que indica que as companhias internacionais estão ampliando seu espaço no país.

Bunce, da KPMG, também vê possibilidades de o governo avançar com privatizações, concessões e infraestrutura. Outra é a possibilidade de 1PO da Caixa Seguridade e do IRB Brasil Re, que abrirão novas oportunidades a investidores.
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