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13Mai2015May13,2015

Minério de ferro em risco

São Paulo - O cenário não poderia ser pior para o minério de ferro, que corresponde a 80% da produção mineral brasileira. O derretimento dos preços da commodity e o imbróglio acerca da votação do marco regulatório do setor impedem investimentos de sair do papel.

Segundo o responsável pela divisão de mineração da Pöyry Consultoria e Serviços de Engenharia, Marcelo Xavier, os projetos minerais ligados ao ferro são os que têm sofrido mais diante da derrocada dos preços no mercado internacional.

"Trata-se de projetos caros e de volumes muito grandes que, no cenário atual, acabam ficando inviáveis", afirma o executivo. Segundo ele, há cerca de dois anos a Pöyry atendeu companhias que planejavam investir em minério de ferro, mas que acabaram em compasso de espera. "As mineradoras estão muito preocupadas", pondera. ​

O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) não compila os dados de investimentos em novos projetos postergados ou cancelados, mas os números são expressivos.

Além de anunciar o possível corte de até 30 milhões de toneladas de capacidade de suas minas menos eficientes neste ano, a Vale também já postergou a expansão dos projetos Itabiritos, na região de Minas Gerais.

A Anglo American, que tem no Minas-Rio seu maior projeto de minério de ferro no mundo - com capacidade de 90 milhões de toneladas a plena operação - avalia vender o ativo ou parte dele, segundo fontes do mercado.

Após diversas baixas inesperadas ao longo dos últimos anos, a mineradora pode ter atingido o ápice dos problemas em meio à derrocada dos preços do minério de ferro. "Diante do cenário atual, essa não seria uma decisão isolada", afirma uma fonte ligada ao Minas-Rio. Ele acrescenta que o movimento da Anglo American de buscar caixa seria "natural" neste momento.

A lista de projetos de minério de ferro adiados no País é longa e, segundo estimativas do mercado, pode conter mais de 20 empreendimentos, como da Bahia Mineração (Bamin), que projeta capacidade instalada anual de 20 milhões de toneladas.

Siderúrgicas

Inicialmente visando consumo próprio, as siderúrgicas brasileiras apostaram na mineração. Porém, há cerca de quatro anos os preços subiram muito e, em alguns momentos, atingiram até US$ 180 a tonelada. À época, as empresas de aço viram no minério de ferro um verdadeiro "negócio da China".

No entanto, com o cenário de preços atual, em que as cotações se mantêm em torno de US$ 50 a tonelada, as siderúrgicas postergaram expansões. É o caso da Usiminas Mineração, que deve manter ao menos por enquanto a sua capacidade instalada e adiar os planos de dobrá-la no curto prazo.

A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) também deve postergar a expansão da mina Casa de Pedra, assim como a Gerdau, que reservou nos últimos anos boa parte dos seus investimentos na mineração, mas agora deve botar o pé no freio.

Analistas do setor acreditam que o ponto mais baixo da curva não chegou e que as mineradoras vão sangrar ainda mais, o que abre espaço para as empresas melhor capitalizadas irem às compras. Uma possível compradora de ativos da Anglo American, por exemplo, seria a trader Glencore Xstrata.

Segundo o executivo da Pöyry, o quadro de desaceleração dos investimentos é generalizado. "A queda dos preços do minério de ferro já impacta, em larga escala, o capex das empresas", avalia Xavier.

Por esse motivo, a Pöyry tem atendido mais projetos de manutenção de investimentos e melhorias operacionais. "Temos inclusive assessorado empresas na captação de recursos para conseguirem tocar seus empreendimentos nesse momento difícil", comenta.

Marco regulatório
Além da perspectiva de manutenção dos preços atuais do minério de ferro no curto e médio prazo, as mineradoras ainda têm que enfrentar as incertezas acerca do novo código de mineração brasileiro, que vem sendo gestado desde meados de 2008.

O ministro de Minas e Energia (MME), Eduardo Braga, afirmou recentemente que o desejo do governo é apreciar o projeto no final deste mês e votá-lo até junho. O relator Leonardo Quintão (PMDB-MG) também chegou a dizer que existe a expectativa de votação para as próximas semanas.

No entanto, o consenso no mercado é que a aprovação do texto não saia neste ano, principalmente porque o foco da Pasta deve ser prioritariamente energia e também óleo e gás.

Para o sócio do escritório Mattos FilhoBruno Werneck, além da conjuntura de preços, as empresas com foco em minério de ferro ainda enfrentam o impasse do novo marco.

"A insegurança gerada pelo código de mineração afasta os investimentos", afirma. Segundo ele, por melhor que o texto se revele, enquanto não houver a sua aprovação, o mercado continuará retraído.

"Recebemos muitas consultas sobre o tema e as empresas têm reportado o adiamento de novos projetos por conta do cenário de preços e também da expectativa de mudanças do marco", revela Werneck.

O movimento na Câmara dos Deputados é positivo no sentido de votar o novo marco majoritariamente entre aqueles que tiveram financiamento de campanha pelas mineradoras, o que inclui o relator do projeto. ​

Mas a expectativa é de que o MME reserve quase 97% do seu orçamento para o segmento de energia neste ano, o que praticamente elimina a possibilidade do governo destinar aportes para implantar o novo marco.

Para Werneck, o setor está muito mais preocupado com questões como leilões de áreas minerais, previstos no texto original do governo, do que simplesmente a majoração dos royalties. "Este aumento as empresas colocam na conta. Mas as outras mudanças é que perturbam os investidores", avalia.

Após a apresentação do texto original do novo marco em meados de julho de 2013, uma comissão especial liderada por Quintão foi criada e uma nova proposta foi apresentada.

"Dificilmente o texto original deve ser aprovado, principalmente diante da vulnerabilidade do governo", acredita Werneck. O advogado acrescenta que o Brasil compete pelos investimentos da mineração com países do mundo todo. "O modelo intervencionista proposto pelo governo só afasta os investidores. Se as empresas não investirem aqui, irão procurar por outro lugar", destaca. 

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