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Crise coloca emissões de bônus em compasso de espera

19Mai2017May19,2017
Mercado de capitais
Valor Econômico
19/05/2017 às 05h00
Por Daniela Meibak | De São Paulo

O mercado de capitais de dívida se recuperava do período de seca, de cerca de dois anos, e voltava a ser uma fonte de financiamento para as companhias. O agravamento da situação política com as denúncias feitas contra o presidente Michel Temer, no entanto, coloca todas as emissões em compasso de espera mais uma vez.
A avaliação dos especialistas é que ainda é cedo para ter uma ideia precisa dos impactos dessas notícias, mas o mercado secundário já antecipa o movimento. Os bônus emitidos no início da semana pela Petrobras apresentam aumento no retorno ao investidor ("yield") de 0,5 ponto percentual em média. A taxa dos títulos com vencimento em 2022, por exemplo, subiu de 5,25% na operação da segunda-feira para cerca de 5,5% ontem, segundo a Morningstar.

Nos outros dois papéis mais longos, com prazo de 2027 e 2044, a tendência é ainda mais acentuada. No primeiro, a taxa saiu de 6% para 6,6% e, no último, de 7% para 7,5%.

Entre os bônus soberanos, o destaque negativo ficou para os bônus mais longos. O papel com vencimento em 2047 recuou 5,6% e aqueles com prazo em 2045 e 2041 perderam 5,4%. Também líquidos, o Vale 2026 caiu 2,7%, e Banco do Brasil perpétuo, 5,5%.

"Estou vendo muita venda tanto de investidores estrangeiros quanto de brasileiros. A estratégia é vender e esperar para ver no que vai dar", conta Carlos Gribel, chefe de renda fixa da Andbanc Brokerage, em Miami. Segundo ele, as companhias de qualidade que não estão no olho do furacão vão conseguir passar por isso, mas podem cair ainda mais a depender do desenvolvimento do cenário político.
Na mesma linha, o banco Société Générale reduziu ontem a sua exposição em títulos de dívida soberana do Brasil, avaliando que o risco aumentou no país, e transferiu dinheiro para comprar título do México. Em nota a clientes, o banco francês afirmou que o escândalo envolvendo o presidente americano Donald Trump e o FBI - e agora a crise política no Brasil - estão mexendo com os mercados.

Outra evidência da deterioração é o risco-Brasil medido pelos contratos de credit default swap (CDS), espécie de proteção contra calotes, que disparou ontem. O prêmio do derivativo de cinco anos fechou o dia próximo a 266 pontos-base, avanço de 60 pontos, para o maior patamar desde o início de janeiro.

O cenário de crise instalado atinge em cheio as emissões de bônus no mercado externo, que já somavam R$ 16,35 bilhões em 2017 incluindo a captação do Tesouro Nacional. "O mercado internacional de dívida deve se fechar temporariamente [para títulos brasileiros]. Devemos voltar a ficar em uma secura nas emissões", avaliou o presidente do Haitong no Brasil, Alan Fernandes, em entrevista ao Valor.

Apesar de boa parte das operações programadas para o ano já terem sido feitas, de olho na rolagem das dívidas que venceriam até 2020, muitas empresas novas no mercado internacional se preparavam para lançar operações. É o caso de Cemig e JSL, que planejam emitir desde o ano passado e já enfrentavam resistência mesmo nos momentos mais favoráveis. Dificilmente essas empresas conseguirão emplacar suas operações no contexto atual. Outras sondavam bancos de investimento para fazer ofertas, como era o caso de CPFL Energia e AES Tietê, e também entraram em compasso de espera.

O mercado local, ainda mais avesso a créditos corporativos mais arriscados, também suspendeu as ofertas. O advogado Bruno Tuca, da área de mercado de capitais do escritório Mattos Filho, conta que já recebeu ligações de companhias para cancelar processos que estavam em andamento.

"Estávamos com uma carteira muito aquecida de operações, com um viés muito positivo. Recebemos muitas pedidos de propostas para emitir títulos incentivados, com destaque para debêntures de infraestrutura. Não sei se o movimento vai parar ou não, mas as operações certamente serão reavaliadas", conta Tuca.

Grandes ofertas estavam em andamento, como é o caso da emissão de ao menos R$ 800 milhões da Autoban, do grupo CCR. Taesa, Eletropaulo, Elektro e Locamérica eram outras companhias que tinham a intenção de levantar recursos com debêntures. (Colaboraram Adriana Cotias, de São Paulo, e Assis Moreira, de Genebra)
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