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Companhias ampliam venda de ativos no pós-crise

4Abr2018Apr4,2018
Societário/M&A
Valor Econômico

Por Vinícius Pinheiro | De São Paulo

Vender negócios fora da área principal de atuação deixou de ser apenas uma opção para empresas em dificuldade em meio à crise. Um estudo da consultoria EY (antiga Ernst & Young) revela que 80% das empresas brasileiras têm planos de se desfazer de ativos nos próximos dois anos, das quais 60% esperam fechar negócio nos próximos 12 meses.

A venda da produtora de celulose Fibria, fechada no mês passado, marcou esse novo capítulo nas fusões e aquisições realizadas no país. Ao contrário da maior parte operações realizadas nos últimos anos, a motivação principal do negócio não foi de caixa, mas de uma opção estratégica dos principais sócios da companhia - grupo Votorantim e BNDESPar.

A tendência de venda de ativos não ocorre apenas no Brasil. O estudo da EY, feito com executivos de empresas em todo o mundo, mostra que 87% têm planos de se desfazer de negócios fora da área principal de atuação nos próximos dois anos. O percentual é praticamente o dobro dos 43% registrados no ano anterior, de acordo com a consultoria.

"O avanço da tecnologia e mudanças regulatórias têm levado um número maior de grupos a considerar a venda de ativos", afirma Fabio Schmitt, sócio de transações corporativas da EY, que realiza o estudo há cinco anos. Do total de entrevistados na pesquisa, 74% informaram que as mudanças na tecnologia influenciam diretamente as decisões de se desfazer de algum ativo, contra 55% no levantamento feito no ano anterior.

A mudança nos hábitos de consumo dos clientes em consequência da tecnologia tem guiado uma série de negócios no exterior, segundo Schmitt. Entre os casos recentes, ele cita a compra da seguradora de saúde Aetna pela rede de farmácias CVS e a aquisição da rede de varejo de alimentos Whole Foods pela gigante de comércio eletrônico Amazon.

Questões tributárias e de regulação também devem ter impactos nos negócios realizados no país. Pelo menos até o momento, a tecnologia não é um fator primordial na decisão dos grupos empresariais de venderem operações consideradas não-estratégicas, de acordo com a pesquisa da EY. A motivação principal ainda é a necessidade de melhora operacional e de rentabilidade. Em 2017, o volume de transações anunciadas foi de R$ 138,4 bilhões, queda de 22,8%, de acordo com dados da Anbima, associação que representa as instituições que atuam no mercado de capitais.

Nos últimos anos, o mercado de fusões e aquisições foi pautado por empresas que colocaram ativos à venda para reduzir o endividamento. Sob pressão depois do envolvimento em denúncias de corrupção, grupos como Odebrecht e J&F Investimentos, dos donos do frigorífico JBS, também precisaram se desfazer de ativos.

Esse processo ainda não acabou, mas o cenário começa a mudar, de acordo com Eduardo Miras, corresponsável pela unidade de banco de investimento do Citi Brasil. "Daqui para frente devemos ver mais negócios com foco em processos de consolidação de mercado e mudanças de estratégia", afirma. O próprio banco americano é um exemplo nesse sentido, quando tomou a decisão de sair dos negócios de varejo em países onde tinha pouca escala, inclusive no Brasil.

A Petrobras é apontada como símbolo das duas fases pelas quais passou o mercado. No auge da crise econômica e no centro do escândalo da Operação Lava-Jato, quando chegou a ter uma dívida líquida superior a US$ 100 bilhões, vender ativos era uma questão de sobrevivência para a estatal. "Com a melhora da situação financeira, a Petrobras se senta hoje na mesa de negociações em uma posição bem mais confortável", afirma o executivo de um banco que trabalha em fusões e aquisições.

A recuperação da economia tem levado a uma competição maior por parte dos potenciais compradores, o que dá uma vantagem adicional para quem está na ponta vendedora, segundo o executivo do Citi. A redução da taxa básica de juros (Selic) é outro fator que estimula os negócios, já que melhora as condições de financiamento das aquisições. "Os compradores ficam mais 'corajosos' e os vendedores mais propensos a negociar", diz Miras.

Nesse cenário, a tendência é que a motivação das transações fique mais relacionada a questões estratégicas do que pela necessidade da crise. A francesa Engie, por exemplo, anunciou no ano passado o plano de se concentrar na geração de energia de fontes renováveis e colocou à venda as térmicas a carvão que detém no Brasil.

Outro sinal do bom momento para os vendedores é o aquecimento do mercado de capitais. Várias empresas têm planos de usar a bolsa, em paralelo às negociações privadas, como porta de saída de seus investimentos. A Eletropaulo pretende fazer uma oferta de ações para, entre outros motivos, que a AES venda sua participação na companhia, dentro dos planos do grupo americano de sair do segmento de distribuição de energia no Brasil.

Em momentos de retomada do mercado de capitais, as condições historicamente costumam ser mais favoráveis aos vendedores, segundo o executivo de um banco de investimento. "Não é por acaso que várias empresas têm optado por negociar com um comprador estratégico ao mesmo tempo em que conduzem o processo de abertura de capital", diz.

Com a melhora da economia e da situação das empresas, a condução dos negócios de fusões e aquisições deve cada vez mais ser pautado pela oportunidade, e não pela necessidade, segundo o advogado João Ricardo de Azevedo Ribeiro, sócio do escritório Mattos Filho. "Quem pôde esperar passar a crise tem hoje a possibilidade de conseguir um preço melhor pelos ativos", afirma.

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