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Com Eldorado, Arauco tenta se aproximar da líder Fibria

19Jun2017Jun19,2017
Societário/M&A
Valor Econômico
19/06/2017 às 05h00
Por Stella Fontes e Ivo Ribeiro | De São Paulo

Arauco e Fibria, as duas maiores produtoras globais de celulose de mercado, produzida com a finalidade de venda a terceiros, estão no páreo pela Eldorado Brasil, da J&F Investimentos. A chilena, segunda do ranking, confirmou no fim da tarde de sexta-feira que celebrou acordo de confidencialidade para avaliar o ativo da J&F e para um possível investimento na Eldorado, conforme antecipou o Valor.

A Fibria, líder mundial em fibra de eucalipto e em matéria-prima de mercado, já apresentou uma oferta de compra aos irmãos Batista, conforme apurou o Valor, mas terá de aguardar na fila enquanto a concorrente negocia. Todavia, tenta romper a exclusividade que a J&F firmou com a chilena.

O acordo entre Arauco e J&F tem prazo de 30 a 45 dias para processo de auditoria da Eldorado e ajustes na proposta de compra indicativa efetuada pela companhia chilena na semana passada. O processo é complexo pelas condições da brasileira, avaliou uma fonte que acompanha de perto o caso. "Pode dar muitas voltas ainda", disse. Dívida, situação operacional, acordo de leniência da J&F e investigações na Eldorado são fatores que vão pesar na efetivação do negócio.

Eventual vitória dos chilenos na disputa reforçará a relevância do Brasil para a indústria global, com operações locais de quatro das cinco maiores empresas de celulose de mercado do mundo: Fibria, Arauco, a também chilena CMPC e Suzano Papel e Celulose. A International Paper, quarta no ranking de 2016, produz a matéria-prima no Brasil, mas para consumo próprio. "Seria uma zebra sensacional, mas também um bom equilíbrio entre Fibria, Suzano e a própria Arauco", avalia um executivo do setor.

Por outro lado, a fusão entre Fibria e Eldorado isolaria a companhia do grupo Votorantim na liderança mundial e "faria todo o sentido" diante da captura de sinergias bilionárias. Há mais de três anos, uma operação dessa natureza tem sido alvo de especulação e, no passado, os controladores chegaram a ter ao menos um encontro para tratar informalmente do assunto. Mas as conversas não evoluíram e a Fibria seguiu seu plano de expansão, já no fim, com investimentos de US$ 2,3 bilhões.

As duas empresas têm fábrica em Três Lagoas (MS). Por isso, gerariam ganhos significativos com a unificação das operações logística e florestal. Neste momento, a Fibria já está a caminho de se tornar uma empresa apta a produzir 8,15 milhões de toneladas por ano de celulose, considerando os volumes de um acordo comercial firmado com a Klabin, com tamanho equivalente a praticamente o dobro da segunda maior nesse tipo de fibra, a chilena CMPC.
Em vendas, a Arauco é hoje maior que as brasileiras. No ano passado, teve receita líquida de US$ 4,76 bilhões - ou pouco mais de R$ 15,2 bilhões ao câmbio atual -, frente a R$ 9,62 bilhões da Fibria e R$ 2,91 bilhões da Eldorado. O principal negócio da companhia chilena são produtos de madeira, seguidos de celulose. E, à diferença de Fibria e Eldorado, focadas em celulose de eucalipto, a chilena faz diferentes tipos da matéria-prima: fibra curta, fibra longa, fluff (para fabricar absorventes e fraldas descartáveis) e kraft não branqueada.

O mercado final da celulose também diferencia Fibria e Arauco. Enquanto os chilenos estão muito expostos à China, que leva 53% da fibra que produz (contra 15% dos europeus), a brasileira obteve 36% da receita líquida de 2016 na Europa e 32%, na Ásia. Considerando-se todos os segmentos em que atua (celulose, silvicultura, produtos de madeira e energia), a companhia do Chile tem fábricas ou unidades produtivas também na Argentina, Brasil (somente painéis de madeira), Uruguai, Estados Unidos, Canadá, Portugal, Alemanha, Espanha e África do Sul.

A Arauco é um dos braços da Empresas Copec, holding da família Angelini, uma das mais ricas do Chile. No fim da tarde de sexta-feira, emitiu comunicado oficializando possível investimento na Eldorado. O Valor já havia informado que Arauco, Suzano e Fibria se preparavam para fazer uma oferta pela empresa controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista e que a companhia chilena teria saído na frente na disputa, ao oferecer mais de R$ 11 bilhões pelo ativo.

Questionada pelo órgão que regula o mercado de capitais chileno (Superintendencia de Valores y Seguros) acerca do noticiário brasileiro, informou o interesse pela Eldorado, "empresa dedicada à produção de celulose, através de seu ativo mais importante, isto é, uma planta com capacidade de produção de 1,7 milhão de toneladas anuais de celulose de fibra curta". Logo após, a J&F confirmou o processo confidencial de negociações.

Segundo fonte próxima às negociações, a Arauco apresentou na quarta-feira uma proposta indicativa, e não vinculante, aos Batista, e contratou a assessoria dos escritórios de advocacia Mattos Filho e Simpson Thacher & Bartlett para auxiliá-la na transação. Procurada, a Copec não deu retorno ao pedido de entrevista.

Segundo informação da imprensa chilena, o grupo controlador da Arauco avalia um aumento de capital entre US$ 300 milhões e US$ 600 milhões para a operação, de forma a não afetar a alavancagem financeira da empresa.

A Fibria informou que não comenta o que qualifica como rumores de mercado sobre seu interesse no ativo.

A aquisição da Eldorado, porém, não deve ser rápida ou simples, na avaliação de fontes próximas às negociações. Antes mesmo da delação premiada dos irmãos Batista, a produtora de celulose já estava no centro de investigações da Polícia Federal.

A companhia chegou a concluir uma investigação interna, que não apontou indícios de irregularidades. Mas os auditores independentes ressalvaram, no balanço financeiro de 2016, que não encontraram documentos que comprovam a prestação de serviços por pagamentos de R$ 37,4 milhões a empresas do doleiro Lúcio Bolonha Funaro, que está preso desde julho do ano passado. A Justiça determinou a realização de nova investigação interna, que está em curso.
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