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Avanço é lento e segmentado

22Ago2018Aug22,2018
Seguros, Resseguros e Previdência privada
Valor Econômico

​Reportagem publicada no anuário Valor 1000

Efeito da crise não é igual para todos os ramos. Maior desafio é a transformação digital

Por Denise Bueno

Queda na taxa de juros, volatilidade no mercado acionário, crescimento da violência, perda de renda da população, desemprego em alta e aumento da concorrência com as novatas de tecnologia, conhecidas como insurtechs, são ingredientes que formaram a tempestade perfeita para tirar o mercado segurador do céu de brigadeiro de dois anos atrás. Dados da Confederação Nacional de Seguros (CNseg) mostram relativa desaceleração do setor, consistente com o movimento geral da economia brasileira. Nos primeiros cinco meses deste ano, a venda de seguros, planos de previdência e títulos de capitalização registrou receitas de R$ 96,8 bilhões, alta de 3%, sem considerar o seguro obrigatório DPVAT. Se incluído, o crescimento nominal do setor cai para 2,1% no período.

A estimativa para 2018 é de taxas positivas, mas menores do que se esperava no início do ano, quando a projeção apontava o intervalo entre 8% e 12%. "Não podemos mais analisar o mercado como um todo, pois cada segmento tem apresentado um comportamento distinto. É preciso olhar ramo por ramo", afirma Márcio Coriolano, presidente da CNseg.

Os seguros para grandes riscos recuaram 8%, e do VGBL, que puxava o crescimento do mercado, amarga queda de 3%, para R$ 44 bilhões no acumulado de janeiro a maio deste ano comparado com 2017. Já o desempenho do seguro prestamista apresenta avanço de 25,1%, na esteira da expansão do crédito pessoal, bem como a capitalização, que registrou alta de 8,1% no período, para R 8,6 bilhões. O diretor-executivo da Federação Nacional das Empresa de Capitalização (FenaCap ), Carlos Alberto Corrêa, afirma que o eixo que sustenta a operação das empresas de capitalização é a tecnologia e uma nova regulamentação. "Muitas empresas já iniciaram processos de transformação digital e isso, obviamente, se reflete nas ofertas de produtos e serviços ao consumidor final. Hoje é possível adquirir um título de capitalização de maneira totalmente digital", conta ele, otimista com a retomada da arrecadação do setor que entre 2015 e 2017, deixou de crescer, recuando 11 %, 8% e 6%, respectivamente.

Já o ambiente de insurtech , apesar do grande potencial, está em um estágio inicial de desenvolvimento no Brasil. Como os resultados financeiros das vendas on-line ainda não são atrativos, o canal corretor deverá manter por mais tempo a sua relevância. Esse quadro limitará a capacidade das insurtechs voltadas para a venda on-line de assumir um papel disruptivo e ganhar escala nos próximo anos.

A lenta recuperação da economia dita o ritmo de crescimento do setor até o ano que vem. "Há uma grande expectativa em relação ao ambiente político econômico pós-eleição. O crescimento do mercado de seguros, de um modo geral, estará condicionado a tal ambiente", afirma Cassio Gama Amaral, sócio do escritório Mattos Filho. Rodrigo Maranhão, sócio da Bain & Company, avalia que, considerando ainda o baixo nível nas taxas de juro, o foco deverá manter-se na melhoria da eficiência operacional, principalmente através da digitalização de processos, de forma a tornar suas estruturas mais enxutas e flexíveis, ao mesmo tempo em que simplificam a experiência do cliente e do corretor. 

E é isso que boa parte das seguradoras tem feito. Vinicius Albernaz, que assumiu o comando da Bradesco Seguro em maio deste ano, afirma que o grupo tem driblado os obstáculos. "Apesar do cenário econômico desafiador, continuaremos trabalhando na busca de escala e eficiência administrativa, além de contínua evolução do nosso modelo de distribuição multirramo em vários canais", destaca o executivo. O faturamento da líder do ranking no primeiro semestre de 2018 foi de R$ 31 bilhões, queda de 1,8%. Mas o lucro avançou 9,2%, para R$ 3,7 bilhões. 

A Itaú Seguros caiu do oitavo para o 12° lugar em vendas devido à restruturação do grupo promovida nos últimos anos, que resultou na venda de várias carteiras, como vida em grupo e grandes riscos. Luiz Fernando Butori, diretor do Itaú Unibanco, que consolidou o segmento Personnalité no mercado bancário, é responsável por fazer o mesmo com seguros, ou seja, criar uma plataforma de produtos e serviços totalmente digital e aderente ao perfil do consumidor. No médio prazo, Butori terá dois desafios pela frente: ampliar a prateleira de produtos, com soluções completas de seguros próprios e de parceiros comerciais, e aumentar a penetração na base de clientes do ltaú.

O grupo segurador Banco do Brasil e Mapfre manteve a segunda colocação no ranking Valor 1000. Em 2017 começou uma reestruturação acionária definida em junho deste ano e que deve surtir efeitos em 2019. A parceria, que durou dez anos, ficará restrita ao segmento de vida e rural. As carteiras de automóvel e grandes riscos serão recompradas pela Mapfre, pela quais desembolsará R$ 2,4 bilhões. O acordo prevê um contrato comercial nos segmentos de automóvel e seguro corporativo de grandes riscos, com exclusividade para a Mapfre nos canais do banco. 

Luis Gutierrez, presidente para as áreas de autos, seguros gerais e affinities da BB e Mapfre, afirma que ajustar o foco na jornada do cliente é uma preocupação de todo o mercado. Nesse sentido, o grupo lançou em 2017 o projeto 'Entender para Atender' para aperfeiçoar produtos e processos a partir de soluções propostas pelos corretores. "Já conseguimos resultados relevantes que melhoram a venda, o pós-venda e o atendimento aos nossos segurados", diz.

A Zurich, que mantém uma joint venture com o Santander em vida e previdência, saltou da 11 ª posição para a oitava no ranking de Valor 1000. "Em 2018, nossa meta é alcançar um nível destacado de crescimento mesmo em um contexto difícil", afirma o CEO Edson Franco. Desde 2015, a seguradora trabalha para consolidar parcerias importantes com corretores, varejistas e instituições financeiras. "Temos feito investimentos em tecnologia para ampliar a oferta de produtos em diferentes canais de distribuição", diz. Franco afirma que o cenário do país e do setor exige das seguradoras escala e eficiência, o que torna indispensável ter foco no cliente e conquistar o engajamento dos funcionários na simplificação de processos.

No segmento de automóveis, cuja concorrência é muito forte, a principal arma das seguradoras é a oferta de produtos de menor custo. Embora as projeções mostrem alguma recuperação nas vendas de carro zero-quilômetro, o sutil avanço está na aquisição de novos veículos pelas locadoras e não pelo consumidor final. "Por isso, esperamos crescer pela diversificação dos nossos negócios, afirma Murilo Riedel, CEO da HDI Seguros. A estratégia do grupo alemão tem como ponto forte a joint venture com o banco Santander para a criação de uma seguradora digital exclusiva para automóveis, que deve entrar em cena ainda neste ano.

A Liberty Seguros galgou duas posições no ranking e passou a ocupar a décima colocação. Quase 80% das vendas são provenientes de seguro de carro. Em meio à crise, a seguradora realizou uma pesquisa para entender como poderiam adequar os produtos às novas necessidades dos consumidores brasileiros. Carlos Magnarelli, CEO da Liberty, conta que, em setembro de 2017, o grupo criou a Aliro, marca que oferece seguros automotivos divididos como os tamanhos de roupa: P, M e G. Quanto menor a cobertura, menor o preço.

As seguradoras que atuam no ramo de automóveis estão fazendo uso de aplicativos como forma de facilitar o relacionamento com os clientes e oferecer benefícios. O app da Liberty analisa o comportamento do motorista e estabelece descontos que podem chegar a 30% do valor do prêmio. Os clientes da centenária SulAmérica, segunda maior do ranking, podem ser recompensados com descontos de até R$ 400 no seguro, R$ 800 na franquia ou 30 diárias extras no carro reserva se forem catalogados pelos algoritmos como um bom motorista.

A Porto Seguro, maior empresa do segmento auto do Brasil e sócia do ltaú nesse nicho, utiliza telemetria no seu aplicativo para influenciar o condutor a ter ações mais conscientes e colaborativas. O desconto pode chegar até 10% para segurados e até 35% para quem tem entre 18 e 24 anos.

Em 2018, a Porto busca crescimento em novos segmentos, como os de telefonia móvel, aluguel de carros e saúde para animais de estimação. Na área de seguros, além de automóvel, a empresa espera crescer nos ramos de vida, residência e odontológico. "Mas estamos atentos ao impacto que a definição das eleições pode causar no mercado", ressalta o presidente da Porto, Roberto Santos.

O DPVAT, administrado pela Líder Seguradora, a sexta do ranking de seguros gerais de Valor 1000, passa neste ano por profundas discussões, que incluem o modelo de gestão depois da queda de preço divulgada pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) diante do superávit nas contas do produto. De 2016 para 2017, o preço do DPVAT passou de R$ 105 para R$ 63 e em 2018 foi reduzido ainda mais, para R$ 45 por ano. lsmar Torres, CEO da Líder, conta que em 2017 os sistemas de informação do seguro obrigatório foram modernizados com o uso de ferramentas avançadas de análise de bancos de dados, integradas a sistemas de inteligência artificial e cognitiva. "Na prática, isso permitiu barrar 17.550 tentativas de fraude em 2017, 44,8% de todas as fraudes evitadas entre 2008 e 2016."

No universo do resseguro, as plataformas digitais estão sendo utilizadas para explorar segmentos de mercado pouco explorados e no apoio técnico para reduzir custos com subscrição, vistoria e regulação de sinistros. O IRB Brasil RE firmou parceria com duas startups de tecnologia: a Samplemed, para telesubscrição no seguro de vida, e a AgroTools, no agribusiness, que viabiliza a subscrição de riscos e regulação de sinistros via satélite. "A seguradora ganha mercado ao usar a tecnologia que disponibilizamos, e nós crescemos junto", afirma José Carlos Cardoso, presidente da resseguradora, que criou a incubadora de tecnologia IRB Innovation para explorar novas frentes de negócios digitais.

Assim como o IRB, as maiores resseguradoras do mundo têm a tecnologia como grande diferencial para distribuição de produtos em canais alternativos. Na América Latina, as maiores oportunidades estão nos segmentos de agro e pequenas e médias empresas (PME), em que a penetração da indústria de seguros ainda é pequena.

"Há espaço também para produtos específicos na área de riscos cibernéticos e aqueles baseados em estrutura paramétrica, que se assemelham ao derivativo do mercado financeiro", diz Rodrigo Belloube, CEO da Munich Re no Brasil.

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