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18Mai2015May18,2015

Corretoras vivem onda de consolidação e grandes cias apostam na diversificação

Em meio à conjuntura econômica difícil, ao desempenho sofrível da Bovespa nos últimos anos e aos custos operacionais cada vez maiores, o setor de corretoras de valores passa por uma nova onda de consolidação, com dois negócios apenas neste ano. Escritórios de advocacia especializados em fusões e aquisições (M&A) consultados pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, dizem que novas operações devem ser anunciadas até meados do ano, sobretudo de grandes corretoras comprando empresas menores que ainda permanecem sob controle familiar. Entre os negócios de 2015, a SLW anunciou uma parceria com a Guide Investimentos e a CGD Securities fechou uma integração parcial com a RICO CTVM. Com margens cada vez mais apertadas, além desse tipo de operação, grandes players apostam também na diversificação de produtos, sobretudo de renda fixa, para se destacar.

​José Eduardo Carneiro Queiroz, sócio-diretor do escritório de advocacia Mattos Filho, afirma que a base de clientes pessoa física das corretoras não cresceu de maneira significativa nos últimos anos, enquanto os grandes clientes institucionais preferem, muitas vezes, as vantagens oferecidas pelos conglomerados financeiros, o que deixa as corretoras em uma situação difícil. "O setor está tendo de se reinventar".

"Obviamente o mercado está passando por um momento difícil, em função da própria conjuntura macroeconômica. O mercado de renda variável sempre foi muito importante para as corretoras e nos últimos anos as coisas não ajudaram muito", comenta Caio Villares, sócio da Concórdia e presidente da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Ele afirma que o desempenho do Ibovespa tem uma forte correlação com o lucro das corretoras, em função dos volumes negociados, da atratividade para o consumidor final e do sentimento geral de aversão ou apetite por risco. "Além disso, existe uma grande pressão de custo, em função dos investimentos em tecnologia da informação (TI), que são cada vez mais importantes para as corretoras". Nesse cenário, muitas corretoras estão indo para nichos específicos, criando novos serviços, saindo de alguns setores.

"Com a Bolsa do jeito que está, fica muito pouca margem para as corretoras, que precisam diluir custos e às vezes acabam se fundindo, também para ter uma estrutura administrativa menor", comenta Victor Baez, sócio fundador da Heartman House Consultores.

Uma alternativa à opção de fusão e aquisição são parcerias que ajudam a reduzir gastos, como por exemplo o compartilhamento da infraestrutura de TI. "São projetos que demandam grandes investimentos e podem ser compartilhados, não são estratégicos para as corretoras", explica Villares, da Ancord. Ele relata que esses projetos de compartilhamentos ficaram muito tempo sendo "requentados", mas agora que o segmento passa por maiores dificuldades, estão começando a sair do papel.

Revoluções Entre os principais casos de sucesso do setor estão corretoras que apostaram na inovação. Guilherme Benchimol, executivo-chefe da XP Investimentos, defende o conceito de "shopping center de produtos financeiros". A empresa, criada em 2001, é hoje uma das maiores do Brasil. "Empresas independentes como a XP precisam se posicionar como contraponto aos bancos comerciais, que têm mais de 30 milhões de clientes que investem mal.

Os bancos só vendem marcas próprias, enquanto a vantagem de ser independente é que você vende todas as marcas", explica. Eduardo Moreira, sócio e diretor da Geração Futuro, que foi comprada em 2012 pelo banco Brasil Plural, apostou em uma gestão diferenciada e base de clientes própria, sem depender de agentes autônomos. "Nós falamos diretamente com quase 90% dos nossos clientes. Isso nos gera uma margem maior e nos dá uma robustez muito grande para enfrentar momentos difíceis. Temos uma capilaridade muito grande", argumenta. O sócio da Geração Futuro espera mais consolidações no setor e diz que está sempre analisando oportunidades, apesar de não ter nenhuma negociação muito avançada no momento.

Já Benchimol, da XP, prefere investir no crescimento orgânico. "Nós captamos quase R$ 3 bilhões nos primeiros quatro meses deste ano, então teria de ser uma aquisição muito relevante para fazer a gente gastar energia em outra coisa que não seja o nosso próprio negócio", expõe.

Diferentemente da maioria do setor, Benchimol se mostra bastante otimista. "Nunca tivemos um crescimento tão acelerado. Não há crise para quem quer trabalhar, inovar", afirma. Segundo ele, se as corretoras derem a devida atenção a outros produtos além das ações, é possível fazer muita coisa. "A diferença entre o rendimento da poupança e títulos públicos nunca foi tão alta, ou seja, nunca foi tão fácil vender esse tipo de produto", conta.

Desmutualização

Um dos fantasmas que ainda paira sobre o setor é a disputa em torno da cobrança de tributos pela Receita no processo de desmutualização da Bolsa, em 2008, que transformou a Bovespa e a BM&F, que eram sociedades sem fins lucrativos, em uma sociedade comercial.

Para a Receita, quando foram encerradas as duas sociedades - e os títulos detidos pelas corretoras e bancos foram transformados em ações -, as companhias tiveram um ganho de capital, que deve ser tributado.

Já as instituições defendem que a antiga sociedade não foi encerrada, mas transformada em companhia aberta. A solução é aguardada pelo mercado porque, em muitos casos, o valor das multas impostas pelo Fisco ultrapassa o patrimônio líquido de algumas instituições.

Para o presidente da Ancord, o grande problema era que esses passivos não podiam ser quantificáveis, o que gerava incertezas. "Hoje, há uma capacidade muito maior de quantificar isso. Colocando um número, fica mais fácil de isolar esse fator. Não acho que esse assunto esteja impedindo novas fusões no setor", comenta Villares.

Chegou-se a ser dito que, desde meados do ano passado, o Banco Central estaria pressionando as corretoras a aumentar as provisões para o caso de serem obrigadas a pagar esse imposto.

Procurada, a autoridade, que é responsável pela fiscalização do mercado financeiro nacional, se limitou a dizer que não há nenhuma novidade sobre o caso e que a questão das provisões é discutida caso a caso com as corretoras.

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